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domingo, 20 de novembro de 2016

Torturando a realidade




Que a ciência experimental trabalha com recortes da realidade e, por isso, não pode fazer afirmações gerais sem muitas ressalvas, qualquer pessoa que pare para refletir a respeito por alguns segundos pode concluir. Trata-se de uma necessidade operacional da coisa, e o verdadeiro cientista sabe lidar com isso. O problema é que boa parte dos cientistas não apenas não atua com correção como extrapolou o conceito de Bacon, de que é necessário "espremer" os dados até que provem aquilo que se quer provar, como faria um torturador na necessidade de extrair uma confissão – seja ela verdadeira, seja ela falsa, proferida para acabar com a tortura.

Poucas áreas são tão férteis à manipulação dos dados experimentais quanto a Sociologia. É possível que sejam os cientistas sociais os maiores torturadores na ciência. Aproveitam-se desse trabalho sujo os políticos demagogos e populistas (ávidos por apoio e simpatia popular e necessitados de justificar suas ações e seus gastos) e os jornalistas militantes (ansiosos para que a realidade se encaixe em suas teses, de modo que possam veicular suas opiniões, em vez de notícias).

Pois um vídeo que “viralizou” esta semana foi todo construído em cima de uma sessão de tortura de dados, de amostras e da realidade. Assista ao vídeo, divulgado na página do Governo do Estado do Paraná: https://www.facebook.com/governopr/videos/890716684362421/. O negócio é repleto de equívocos científicos, da exposição de diferentes materiais a diferentes grupos ao tamanho da amostra em relação às conclusões. Mas o que assusta mesmo é a manipulação criminosa na condução da experiência.

Trata-se de um teste com grupos que são expostos a imagens de brancos e negros e que devem dizer o que essas pessoas estão fazendo. Primeiramente, o mediador mostra ao “Grupo 1” fotografias de pessoas brancas em situações comuns – correndo, limpando, jardinando etc. Depois, segundo o vídeo, mostra para o “Grupo 2” “AS MESMAS FOTOS, mas com pessoas negras”. De fato, as situações são as mesmas: corrida, limpeza, jardinagem etc.; de modo que o olho desatento não percebe a manipulação que se processa.
                                                                                
Acontece que, na realidade, os protagonistas das imagens mostradas ao segundo grupo se apresentam de forma muito diferente, o que induz a opinião dos entrevistados. O resultado é que o grupo 1 enquadra as pessoas brancas em atividades, digamos, mais nobres, enquanto o grupo 2 entende que os negros estão em situações depreciativas. Ou seja, o resultado obtido é precisamente aquele pretendido por quem queria divulgá-lo. Como todo experimento científico concebido não para verificar hipóteses, mas para ser um suporte ideológico, amoldando a realidade à opinião de quem o encomendou, esse experimento em questão não foi concebido como deveria, não partiu de uma pergunta: “Há racismo?” Não. Como em toda canalhice científica, partiu-se de uma afirmação; mais do que isso, de um desejo: “Queremos provar que há racismo.”

O experimento não foi conduzido para provar uma hipótese, mas para endossar um sentimento, uma opinião; e para reforçar uma impressão geral (que, aliás, até pode ser verdadeira). Da mesma forma, a edição do vídeo também foi calculada para induzir conclusões no espectador. As imagens mostradas ao segundo grupo aparecem muito mais rapidamente na tela, de modo que você não consegue captar mais do que o quadro geral. Por exemplo, você vê duas pessoas diferentes procedendo com uma limpeza, mas a mulher negra fica menos de um segundo na tela, tempo insuficiente para que se repare nas nuances (mas mais do que suficiente para o apressado usuário de internet chegar à conclusão desejada pelo manipulador).

Com base na observação cotidiana, podemos afirmar que há, sim, racismo. Manifestado de diferentes formas, o racismo é um erro individual, não uma política institucional, de um ente abstrato público ou privado (daí a nova bandeira, “racismo institucional”). Mas, como toda demagogia, o negócio soa bem, causa boa impressão – e não soluciona nada. Entretanto, para dar a impressão de que a coisa é como postulam os justiceiros sociais, os politiqueiros que encomendaram e os supostos cientistas que executaram o experimento apresentam-no como se as opiniões colhidas fossem representativas de uma totalidade. Ou há flagrante estupidez científica (porque sustentam conclusão geral a partir de uma amostra muito pequena e não-representativa do todo), ou há mau-caratismo criminoso (porque apresentam apenas as amostras que confirmam a tese).

O que o Governo do Estado do Paraná fez foi utilizar-se de uma estratégia de quinta categoria, apelando a um suposto embasamento científico para comprovar uma tese e, principalmente, “viralizar” um conteúdo, ganhar likes e compartilhamentos de pessoas ávidas por sacolejar uma bela bandeira na qual se lê: “OLHEM PARA MIM, SOU UMA BOA PESSOA, TENHO BONS SENTIMENTOS” Produziram um material sob medida para que opinadores apressados, que formam suas opiniões com o Jornal Nacional e o Fantástico, pudessem postá-lo no Facebook, com frases de efeito do tipo "Para refletir", "Isso a Globo não mostra" e "Hipocrisia agente vê por aki... Há corda Brasil!".


ANÁLISE DETALHADA

O negócio foi todo engendrado de maneira muito inteligente, para fisgar o público dinâmico e acelerado do Facebook, que, enquanto assiste à novela e fica de olho nas crianças, aterroriza-se com uma “prova” de “racismo institucional” e, segundos depois, compartilha uma receita de bolo, uma frase motivacional ou um vídeo de gatos fofinhos. Essas pessoas estão mal-acostumadas, após anos de manipulação e empulhação; mas, graças à mesma internet que reforça a confusão manicomial em que vivemos, podem fazer esclarecimentos como este.

Graças à internet, canalhices como a dos governantes paranaenses não passam mais incólumes. Canalhices, aliás, que só fazem atrapalhar quem realmente sofre com problemas como o racismo.

A seguir, detalho as comparações feitas pelos “estudiosos” contratados pelo Governo do Paraná e outras questões do tal “viral”. Comecemos com as imagens apresentadas.

Homens correndo. Grupo 1 diz que o branco está correndo; grupo 2 diz que o negro está fugindo. Imagens muito parecidas (inclusive, os modelos estão com roupas iguais); contudo, o homem branco tem um olhar distraído, apalermado, olhando para “o nada”, enquanto o negro parece assustado, mirando reto. Há, portanto, uma leve indução.
                                      
Mulheres mexendo com roupa. Grupo 1 diz que a branca é designer de moda ou consumidora; grupo 2 diz que negra é vendedora ou costureira. Realmente, as fotos são iguais; ambas as protagonistas estão bem vestidas e com a mesma expressão. Sem indução.

Homens de terno. Grupo 1 diz que branco é executivo ou profissional de RH; grupo 2 diz que negro é segurança de shopping ou motorista. Os modelos estão vestidos igualmente, mas se postam de maneiras muito distintas. O homem branco transmite arrogância e displicência: ombros caídos, postura relaxada; seu olhar, de baixo para cima, é de enfado; realmente, pode bem ser um executivo prepotente e estressado. Já o negro tem atitude de força e confiança: ombros erguidos, postura ereta; seu olhar, de cima para baixo, é de superioridade; tudo muito típico em um agente de segurança, de alguém que cuida dos outros; meu primeiro palpite seria que é um agente do FBI. Portanto, temos aqui uma comparação indutiva.

Homens trabalhando no jardim. Grupo 1 diz que o branco está cuidando do jardim de sua casa; grupo 2 diz que o negro é um jardineiro. Não é preciso argumentar muito; aqui, a indução é constrangedoramente flagrante. Está claro, pela fotografia, que o homem branco, que sorri e olha confiante, está em um momento de lazer, fazendo algo de seu agrado – como o é o ato de cuidar de seu próprio jardim. Já o homem negro está claramente desagradado, carrancudo, com os olhos semi-cerrados, contrariado – como estaria alguém que não faz mais do que cumprir uma obrigação que lhe desagrada. Em tempo: o negro segura uma pesada tesoura de jardim, enquanto o branco trabalha com uma ferramenta mais delicada; elementos que reforçam a diferenciação entre lazer e obrigação.

Mulheres limpando. Grupo 1 diz que a branca está limpando sua casa; grupo 2 diz que a negra é diarista ou empregada. Novamente, a indução é clara e evidente. Chega a ser patético, pois a mulher branca está limpando com uma felicidade e uma serenidade jamais verificada em nenhum ser humano enquanto tem de dar-se ao dever de limpar a casa, mesmo que seja a sua. Mas, a atitude da branca cumpre seu papel e induz a opinião dos entrevistados. A mulher negra, por sua vez, está séria, concentrada; suas mangas estão arregaçadas e ela usa luvas de borracha, o que indica trabalho pesado, situação diversa à da branca.

Mulheres pichando. Grupo 1 diz que a branca é “grafiteira”; grupo 2 diz que a negra é “pichadora”. As fotos são muito semelhantes. Não há indução.

Outras questões:

AMOSTRA INSUFICIENTE. Como já disse, as opiniões de oito pessoas não podem ser representativas do comportamento institucional geral. Além disso, temos pessoas diferentes opinando a respeito de materiais distintos.

CONDUÇÃO DAS RESPOSTAS. Em dois momentos fica claro que os entrevistados deram respostas induzidas pelas perguntas. A questão central era algo como: “Olhe para a imagem e diga o que a pessoa está fazendo.” Todavia, quando aparece o homem branco jardinando, um dos entrevistados diz: “Não parece ser empregado...”; depois, quando a mulher branca está “grafitando”, uma entrevistada diz: “Grafite é arte, não é ‘vândalo’” (sic). São comentários que extrapolam a questão central e indicam que a manipulação pode não ter se dado apenas com as imagens apresentadas, mas com as perguntas que conduziram as respostas supostamente racistas.

QUEM SÃO OS “ESPECIALISTAS”?
Na página do Governo do Paraná, muitas pessoas apontaram elementos de manipulação do teste. A resposta padrão da assessoria é esta: << O Teste de Imagem é um experimento real, que aconteceu na noite do dia 10/11 em uma sala de Focus Group, em Curitiba. Participaram do teste profissionais RH reais, que foram divididos em dois grupos distintos e emitiram opiniões espontâneas às imagens apresentadas pelo mediador do experimento. >>
Contudo, pesquisando na internet, não encontrei nenhum FOCUS GROUP de Curitiba. Agradeço se alguém tiver a informação de que eles existem de fato. Mas louco é quem duvida de que o Governo do Paraná tomou o nome de um método (“focus group”, grupo focal) para batizar a empresa dos supostos especialistas e dar às pessoas a confortável sensação de que o teste que embasa seus preconceitos do bem é confiabilíssimo. Considerando tudo que analisamos até aqui, é uma perversidade tão absurda quanto possível.

PRECONCEITO VELADO. Que existe preconceito entre as pessoas não se pode negar; inclusive, pode-se verificá-lo em quem se enfureceu com o vídeo porque acha que é depreciativo ganhar a vida limpando casas ou cuidando de jardins.

INVALIDEZ. No Grupo 1 há uma mulher que diz que “grafite é uma arte, não é ‘vândalo’” (sic). Só por essa manifestação o negócio todo já deveria ser invalidado, por contaminação das amostras e incapacidade intelectiva dos entrevistados.


–– MAIS MANIPULAÇÃO. O vídeo é encerrado com mais desinformações e fraudes, com apelo a números para reforçar ainda mais o discurso.

– Opiniões pessoais tomadas como evidências científicas: “82,6% dos negros afirmam que a cor da pele influencia na vida profissional.”

– Falsa imputação de crime: “Negros ganham 37% menos que os brancos” / “São a maioria entre os desempregados: 60,6%”. Como se isso fosse resultado de decisões de malvados e racistas empregadores. É mais provável que isso seja conseqüência de uma possível falta de preparo e capacitação, ocasionada – vejam só! – justamente por políticos demagogos que preferem capitalizar em cima de uma “raça”, em vez de fazer algo por seu desenvolvimento.

– Recorte dos dados: “[Negros] Ocupam apenas 18% dos cargos de liderança.” Estamos falando de negros como os das imagens do teste ou de “negros e pardos”? Pois, se forem como os das imagens, segundo o IBGE apenas 5,9% dos brasileiros consideram-se negros, o que revelaria que 18% de negros em cargos de liderança é um índice pra lá de positivo.

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EM RESUMO

Estupidez, demagogia e manipulação institucional – chega de fingir que é normal! Canalhice com o dinheiro público é crime.

2 comentários:

  1. Não conhecia teu trabalho, mas por este post vejo que me tornarei um habitué aqui. Ainda, o que mais gostei não foi a conclusão, da qual já concordo há horas, mas o método de justificação da mesma. Malgrado, nem toda nossa 'direita' está habituada a um método argumentativo que confronta os problemas.

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