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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Como você quer morrer?



A reunião entre lideranças do Movimento Brasil Livre com Fernando Henrique Cardoso representa uma visão equivocada daqueles que passaram a organizar as manifestações contra o Dilma e o PT. Desde março, quando houve a primeira onda de movimentações nacionais, o MBL tem feito o caminho inverso do recomendável: afastou-se das demandas reais e necessárias e passou a negociar o protagonismo da derrubada do PT com parceiros do PT e oposicionistas de faz-de-conta. Isso me lembra uma história...

Certa feita, em uma conversa etilizada, perguntaram-me:
-- Como você prefere morrer, com um tiro na testa ou com um tiro no peito?
Respondi com uma pergunta:
-- Tenho apenas essas alternativas?
-- Sim, foram as que te apresentei.
-- Certo, mas essas alternativas serão as únicas possíveis somente se eu estiver amarrado, sem possibilidade alguma de defesa. Aí sim, uma inesperada benevolência do assassino poderia me oferecer a escolha da forma de morrer. Mas, se me restasse uma única chance de reação, eu escolheria reagir.
A cada quatro anos, nas eleições presidenciais, quando, amarrado e sem chance de defesa, deparo-me com o sucesso da estratégia das tesouras da esquerda, recordo-me dessa conversa.
Em 2006, 2010 e 2014, nas eleições presidenciais, tivemos de escolher entre um tiro na testa e um tiro no peito. Em ambos os casos, fiz campanha aguerrida para candidatos do PSDB. Ou seja, pedi votos e dei o meu próprio para uma associação de esquerda, simplesmente porque a alternativa era o Partido dos Trabalhadores (PT). Por mais indesejável que seja, aliar-se ao PSDB é aceitável e compreensível pela pura falta de melhores alternativas, por pragmatismo. Contudo, acabado o período eleitoral, a situação é outra. Ou deveria ser.
Mas vamos por partes.
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Historicamente, após chegar ao poder, a esquerda começa a dividir-se, a fim de multiplicar-se, tal qual as células de um câncer – que é, afinal, o que é o socialismo, metafórica e (Por que não?) factualmente. Divide-se para conquistar, pois, com isso, ao mesmo tempo, a esquerda cria (1) uma oposição de faz-de-conta (a chamada linha-auxiliar) e (2) uma “vacina”, reservando um grupo imaculado para os casos emergenciais.

1) Então, em primeiro lugar, temos o teatro, o faz-de-conta.
Ao dividir-se, a esquerda acaba por expandir-se. Militantes constrangidos com os pragmatismos dos companheiros que estão no poder se unem em outros grupos e partidos, ficando à vontade para posar de puras donzelas, enquanto, na verdade, fazem um jogo duplo. Conformam a “esquerda da esquerda”; o PSOL é exemplo. Há, também, a “direita da esquerda”, formada por partidos como PSDB, PSB e PPS. Assim, a hegemonia já conquistada na área cultural (desde a década de 1960) se refletiu no campo político. Basta analisar os votos dos deputados desses partidos em casos capitais, como o do calote de Dilma, aprovado no fim de 2014; ou olhar para suas reações em momentos de crise política. Fernando Henrique, Geraldo Alckmin, José Serra, Luciana Genro, Jean Wyllys e mesmo Aécio Neves variam entre relativizar as premissas para o impeachment de Dilma Rousseff e refutá-las totalmente. FHC, inclusive, repete a posição assumida no escândalo do Mensalão, quando desaprovou qualquer movimentação em favor da cassação de Lula.
A questão fundamental, a base dessa estratégia, é o fato de que o esquerdismo em geral, herdeiro do totalitarismo socialista, trabalha sempre pela hegemonia, pela ocupação de todos os espaços. Então, para simular a existência de uma oposição, brigam entre si, rompem e criam novos partidos (como o PSOL), ou estabelecem um revezamento no poder (PT-PSDB), travando nada mais que uma “disputa por cargos”, sem discordâncias ideológicas e programáticas. E não sou em quem o diz:
Cristovam Buarque: Nossas brigas (PT e PSDB) não podem impossibilitar um trabalho?
Fernando Henrique: Não discutimos nem disputamos ideologia. É poder, é quem comanda.
Cristovam Buarque: Ainda é possível uma aliança PT-PSDB?
Fernando Henrique: Acho que sim. Porque a luta é política, não é ideológica.
Apavore-se mais aqui: http://www.psdb.org.br/a-luta-de-pt-e-psdb-e-politica-nao-ideologica/

2) A vacina, a reserva de um grupo imaculado para a emergência
Essa tática, chamada por Stálin de “estratégia das tesouras”, serve também às situações extremas. Vacinam-se do mal futuro antes mesmo de fazê-lo. Seria algo como: “Em caso de emergência, se tudo der errado, acione aquela suposta oposição.” E bem sabemos que com a esquerda, cedo ou tarde, tudo dá errado, pois o socialismo só dura até acabar o dinheiro dos outros. Então, quando tudo dá errado, esquerdistas de todo o mundo se unem (finalmente!), escolhem um bode expiatório, colocam toda a culpa nele e partem para a próxima tentativa. Foi o que fizeram com o próprio Josef Stálin: quando ficou impossível de esconder do mundo suas atrocidades, incluindo os mais de 50 milhões de assassinatos cometidos em nome da revolução socialista, a esquerda mundial se uniu para culpá-lo, como se fosse possível uma única pessoa fazer tanto mal sozinha. A verdade é que o antigo amigo de Hitler contou com uma imensa rede de agentes, militantes e burocratas dispostos a calar qualquer oposição, dispostos a matar dezenas de milhões de pessoas em nome da revolução. Quando tudo deu errado, com sua covardia típica, os socialistas esperaram Stálin morrer, colocaram a culpa nele e retomaram a pose de salvadores do mundo.
Mutatis mutandis, é isso que fazem forças e lideranças da esquerda brasileira – incluindo importantes nomes petistas. Marta Suplicy, Olívio Dutra, Tarso Genro, Lula e outros já se vacinaram, estabelecendo uma distância segura de Dilma Rousseff e seu governo, como se não fizessem parte dessa história. No momento em que o projeto petista naufraga nas mãos de uma capitã cega, surda e incapacitada, ensaiam jogá-la aos tubarões, para poderem tocar o barco adiante. Começa a fazer de conta que não têm nada a ver com o negócio, para logo colocarem-se à disposição do povo: “Tá bom, tá bom, nós salvaremos vocês.”
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Pois, não são precisamente essas as posturas atuais de gente como Fernando Henrique Cardoso e Hélio Bicudo? O primeiro passou anos ocupando a confortável posição de oposição de faz-de-conta, liderando uma colaboração direta e indireta ao esquema petista, sem jamais constranger-se em defender o continuísmo de Lula e Dilma, a despeito dos escândalos que fazem Collor parecer um ladrão de pirulitos. O segundo, um dos fundadores do PT, jamais se dissociou da esquerda, acomodando-se entre o grupo da reserva, da vacina, disposto a salvar a esquerda dela mesma.
Agora, após manifestações populares numerosas e significativas de reprovação ao governo petista e com a situação política e econômica caminhando a passos largos rumo ao brejo, agem conforme se poderia prever: fazem de conta que nada têm a ver com a bagunça e vão atrás de transformar-se em líderes da reconstrução.
Ao entregar seu pedido de impeachment de Dilma, apoiado por lideranças das manifestações de março, abril e agosto, Hélio Bicudo disse: "Como lutamos contra a ditadura dos fuzis, lutamos agora contra a ditadura da propina." Fernando Henrique Cardoso defende a legalização da maconha, o desarmamento da população civil, a agenda gay, o assistencialismo estatal e, agora, se reúne com as lideranças das manifestações contra Dilma e o PT.
No momento em que a queda de Dilma é cada vez mais provável, parte da esquerda se movimenta para tomar o protagonismo da derrubada do petismo – e, o pior, é respaldada por aqueles que outrora tiveram o mérito de capitanear as manifestações populares. Quando conservadores, liberais, libertários, centristas, intervencionistas anti-esquerdistas e inconformados em geral tomaram as ruas em março, alguns jovens tiveram o mérito de capitanear as ações, unindo-se sob o Movimento Brasil Livre. Após acumular revolta popular contra o PT, contra o esquerdismo e mesmo contra políticos tradicionais não-ligados ao petismo, o MBL se tem unido a quem? Justamente a quadros do PT, do esquerdismo e da política tradicional, como Bicudo e FHC, em uma união dita “pragmática”, para tirar o sofá da sala, para derrubar a mula expiatória Dilma Rousseff. Trocando a pressão popular por conchavos tradicionais, ignoram justamente o cerne da indignação popular e ainda dão voz àqueles mesmos que foram parceiros do petismo ou com ele coniventes.
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Novamente: em 2006, 2010 e 2014, nas eleições presidenciais, tivemos de escolher entre um tiro na testa e um tiro no peito. Em ambos os casos, fiz campanha aguerrida para candidatos do PSDB. Ou seja, pedi votos e dei o meu próprio para uma associação de esquerda, simplesmente porque a alternativa era o Partido dos Trabalhadores (PT). Por mais indesejável que seja, aliar-se ao PSDB é aceitável e compreensível pela pura falta de melhores alternativas, por pragmatismo.
Contudo, acabado o período eleitoral, a situação é outra. Por força das circunstâncias atípicas da política brasileira, que não oferece opções partidárias realmente distintas, muita gente boa acabou filiando-se ao PSDB; mas, do seu programa às declarações e posturas de alguns de seus principais líderes, passando por suas políticas sociais, não se pode dizer de forma alguma que o partido seja liberal ou conservador. Trata-se de uma esquerda moderada, às vezes dissimulada, com alguns quadros valiosos. Isso posto, unir-se ao PSDB ou a suas lideranças declaradamente esquerdistas em "tempos de paz" (fora das eleições) é qualquer coisa, menos pragmatismo. Mais: é desperdício de tempo e de energia, que deveriam ser empregados em construir uma oposição real, voltada aos verdadeiros anseios populares. Aliás, não combater, no campo cultural e político, todas as forças responsáveis diretamente ou coniventes com a hegemonia esquerdistas é um dos motivos pelos quais a cada quatro anos temos de escolher entre levar um tiro na testa ou no peito.
Unir-se a Hélio Bicudo e Fernando Henrique Cardoso, ignorando toda a população revoltada justamente com os conchavos entre possíveis líderes renovadores e raposas da velha política, focando apenas no impeachment de um símbolo da situação e dando espaço a culpados pela situação é escolher levar um tiro na testa e outro no peito, ao mesmo tempo, em um momento em se poderia tranqüilamente desarmar o bandido e o bando todo, com o apoio de 9 em cada 10 brasileiros. 
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O povo foi às ruas contra as políticas esquerdistas, o PT, Lula, Dilma e toda a classe política. O MBL surgiu, teve o mérito de liderar a organização das manifestações, mas cometeu o erro de querer liderar as manifestações em si, seguindo estratégias no mínimo duvidosas, em vez de somente cuidar da logística para que o povo pudesse colocar o petismo para correr. Resolveu, então, marchar a Brasília pedir ajuda... da classe política, aquela com quem o povo não queria mais conversa. Mesmo assim, o PT se assustou e os políticos deram alguma atenção. Sobrevieram reuniões no Congresso, articulações etc. Lula pediu ajuda a FHC. FHC chamou o MBL para uma reunião. Todos, juntos, descartarão Dilma – e talvez descartarão também o PT. O que vem despois disso? Uma esquerda renovada, respaldada por haver participado do descarte de quem teve o azar de estar no comando do país no inevitável momento da derrocada da estratégia esquerdista. 
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Sigamos tomando as ruas e pressionando por mudanças, mesmo “liderados” por quem negociou a pressão popular com parte dos pressionados. Façamos isso ao menos até o momento em que dentre nós, os brasileiros que não querem negociar o cuidado do galinheiro com as raposas, surjam lideranças com a meritória inciativa do MBL, mas com a estratégia correta, direcionada para ações efetivas – ou seja, pressão popular verdadeira e inegociável.


P.S.: que ninguém venha com argumentação de torcida de futebol, do tipo “Vai lá e faz melhor” (até porque o MBL não levou ninguém para as ruas; quem o fez foi o maior partido do Brasil, o ANTI-PETISMO). Mas, enfim, apenas em uma sociedade doente se aceita que todos devem estar dispostos a fazer tudo, que não há vocações específicas entre os indivíduos. A despeito disso, eu mesmo tentei participar da liderança das manifestações em minha cidade, mas acabei por afastar-me, por perceber que não conseguiria lidar com a compreensão que o MBL como um todo tem das movimentações – haveria vários exemplos para dar, mas a “troca de idéias” com FHC é símbolo suficiente. Evidentemente, dentro do grupo há gente muito boa, que, aliás, poderá amadurecer e assumir a liderança certeira de que falo. Desde 16 de março tenho discutido internamente essas questões. Trago parte delas ao debate público justamente porque o MBL “nacional” resolveu tornar pública sua inabilidade estratégica.

3 comentários:

  1. Você está certo. Infelizmente não há uma liderança anti-esquerda verdadeira que possa falar e ser ouvida e assim acolher os sentimentos de uma imensa maioria de conservadores que existem no Brasil e que porém nem sabem que o são. Bastariam poucas palavras de um verdadeiro líder e as pessoas diriam surpresas: "era isso que eu estava querendo ouvir".

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  2. Muito bom seu texto. Estive nas manifestações do MBL desde o início, fui nas pequenas e também nas gigantescas na Paulista. Os méritos deles são inegáveis, são lutadores, e desse meio vão surgir lideranças melhores que as que temos hoje.
    Como diria um outro "É urgente que não tenhamos pressa". Embora os valores Conservadores estejam aqui e ali no Brasil, não dá pra ignorar o que uns 50 anos de esquerdismo fizeram nas mentes das pessoas. Vai demorar pacas pra desmontar esse esquema mafioso, e toda ajuda é benvinda.

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  3. Acho eu, que os conservadores e simpatizantes precisam tomar o poder na europa e nos EUA primeiro. E se isso ocorrer e Deus nos ajudar...o mesmo ocorrerá no Brasil depois de uns 10 anos.

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