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segunda-feira, 6 de julho de 2015

Evoluindo para o abismo



Ouvi alguém dizer (talvez uma sexóloga de programa vespertino de TV, não sei) que “hoje em dia é normal que jovens de 12, 13 anos façam sexo” e que “pode ser que um dia deixe de ser assim”, “que volte a ser como antes”, mas que “agora é preciso se adaptar” à situação vigente.
Pois digo que o pensamento humano, a moralidade humana, não é algo alternado, transitório, sucessivo. Não é descrito, como querem os relativistas hodiernos, por algo como o movimento cíclico das estações do ano; não é uma sucessão de alterações de intensidades e estados de aparência, típica das mudanças climáticas. Em vez disso, a melhor metáfora à movimentação da humanidade (stricto sensu) é a evolução da noite para o dia – nessa ordem, porque é a alteração da escuridão para a luminosidade. Não se trata de uma mudança radical, binária; há, também, graduação – mas muito mais sutil do que na metáfora climática do relativismo. Nesta, os valores se alteram ao sabor das condições externas, do contexto. Como corpos submetidos às mudanças meteorológicas, os valores sob a ótica relativista têm suas características alteradas por acidentes e incidências ambientais – mudam de essência e aparência conforme estas ou aquelas condições de temperatura e pressão. Não há, pois, perenidade moral, porque tudo depende de condições várias, aleatórias e de previsibilidade falha, o que redunda não em evolução, mas em uma alternância confusa e caótica de estados. E, assim, a verdade de hoje será a mentira de amanhã e vice-versa.
Contudo, quem se detenha honestamente, sem vícios, à análise da natureza humana sabe que há, sim, uma evolução de fato – perene e indubitável. Para essa análise, sugiro sempre que se siga CS Lewis, no Capítulo 1 de "Cristianismo puro e simples" [1]. A evolução do pensamento humano, da moralidade humana, é uma evolução de luminosidade, da possibilidade de se enxergar aquilo que estava nas trevas da ignorância – a saber: cada ponto, cada artigo daquilo que Lewis chama de Lei Natural ou Lei da Natureza Humana, que diz que "todos os seres humanos, em todas as regiões da Terra, possuem a singular noção de que devem comportar-se de uma certa maneira, e, por mais que tentem, não conseguem se livrar dessa noção".
A verdadeira evolução é, pois, a transição das trevas para a luz. O objeto (o valor moral, a Verdade) em si não muda, apenas é revelado; o que muda é a capacidade de percepção de quem o vê. E, diferentemente das estações climáticas relativistas, nas quais todos são submetidos passivamente às inexoráveis intempéries, o dia da Verdade chama cada indivíduo à ação, à resistência, à caminhada. Para a humanidade, esse dia começa após a queda original; ou seja, é um dia que começa na noite, na escuridão. O sujeito, então, deve resistir à paralisia e ao desespero dessas trevas. Conforme tateia o ambiente e identifica aquilo que o cerca, passa a pelo menos vislumbrar os vultos. À medida que o sujeito resiste, ele avança não apenas no tempo, mas também no espaço – a transição se dá com o passar dos segundos, mas se o sujeito não caminhar na direção da luz, parará no tempo. Aos poucos, a luminosidade começa a tomar conta do ambiente, até ser total e atingir o próprio indivíduo. É assim com cada tópico da Lei da Natureza Humana.
Voltando ao mote deste texto: com o fim da escuridão, à ausência de nuvens, vemos que não somos rebanhos irracionais, que não precisamos nos “adaptar” à situação vigente, mas que podemos entender a realidade perene e arbitrar livremente sobre o que fazer com ela. A realidade do caso que motivou esta reflexão é que se trata da expressão de uma confusão tipicamente relativista. Diz-se que, atualmente, é “normal” que na transição da infância para a adolescência se pratique sexo com base em uma evolução aparente: já foi “normal” apenas a partir dos 21, depois a partir dos 18, 17, 15 e, agora, 13, 12 anos de idade. Ora, com base nessa mudança com aparência de evolução, não seria equivocado dizer que logo será “normal” que a sexualidade aflore aos 9, 7, 5 anos de idade. E bem sabemos que não é assim. A aceitação dessa suposta “situação vigente” não é a evolução da ignorância para a verdade; não é sequer a alteração relativista de uma verdade para a outra; é, sim, a obnubilação da verdade desta questão, o apagamento do fato de que não é pela idade que se mede o preparo para o ato sexual, mas por um conjunto de aspectos (físicos, psicológicos, morais), do qual a idade é mero elemento.
Quem diz que “a sociedade evoluiu” porque, por exemplo, agora se faz sexo cada vez mais cedo, já está na situação de confusão psicótica criada pelo estado de volubilidade moral criado pelo relativismo moderno, que [diz que] matou Deus e colocou em seu lugar a vontade egoísta de cada um. Apega-se a um registro (etário, no caso) em nome de uma verdade arrogada, gelationosa, tíbia, relativa, ignorando as variáveis realmente relativas que conformam a Verdade fixa da questão.
Dificilmente viva entre nós quem atingirá a luminosidade total, e nisso não há novidades nem problemas, pois, se (mesmo sabendo que ela é inabarcável por nossa compreensão limitada) vivermos a buscá-la nesta vida, ela nos esperará na Vida luminosa de fato.
Essa busca é dificílima per se, mas é ainda dificultada por algumas intempéries. Após o vislumbre permitido pela luz do dia da Verdade, poderemos vacilar, fraquejar e permitir que nuvens obnubilem a visão, ou que chuvas e trovoadas atordoem nossa percepção. O importante é jamais nos esquecermos de que a Verdade seguirá lá, por detrás das nuvens, ou melhor, por sobre as nuvens, luminosa, pétrea, impávida e colossal, fixa no solo como a mais forte e imponente cruz que a mente humana possa conceber, apenas esperando por que consigamos evoluir até acessá-la.
Já a evolução relativista seguirá sempre a passos largos, rumando ao abismo.
 
<< O cristianismo [a Verdade, em última instância] é a única estrutura que preservou o prazer do paganismo. Poderíamos imaginar crianças brincando na planície de um topo relvoso de alguma ilha elevada no meio do mar. Contanto que houvesse um muro em volta da beira do precipício, elas poderiam entregar-se ao jogo frenético e transformar o lugar na mais barulhenta creche. Mas os muros foram derrubados, deixando desguarnecido o perigo do precipício. As crianças não caíram; mas quando seus amigos voltaram, elas estavam todas amontoadas cheias de terror no centro da ilha; e sua canção já havia cessado. >> GK Chesterton




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