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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O palpiteiro



Em nosso violentado, tributado e inflacionado país, há uma figura cuja nocividade só não é maior do que a aceitação do público a suas falhas: o palpiteiro. E parece que quanto mais furados são seus palpites, mais aceito e celebrado é o tipo. Um espécime mui representativo dessa classe de embusteiros é Luis Fernando Verissimo. Metido a sarcástico, sagaz e irônico, sua maior ironia reside em seu sobrenome.
Se esse senhor se dedicasse a conhecer tudo aquilo que finge entender, ​seria de um gênio quase inigualável. Contudo, porque não vai além da pose afetada, igualmente não vai além de falaciar e enganar sua legião de ingênuos leitores. Alertado por um amigo, li a coluna de Verissimo na ZH de 01/12/2014, de título “Bang!***, na qual o escritor desdenha da Igreja Católica em relação à Ciência, debochando do fato de o papa Francisco haver admitido a possibilidade de ocorrência do "Big Bang". 
Quem estranha essa posição do papa desconhece completamente aquilo que finge entender – a ciência. Pois, o propositor da teoria do "Big Bang" foi um astrônomo que era... padre. Falo do belga Georges Lemaître. 
Ou seja, era religioso o cientista que propôs a teoria que Verissimo e outros farsantes imaginam contrapor o criacionismo. Lamaître, aliás, era tão religioso quanto o "pai da Genética" (o monge agostiniano Gregor Mendel), o "pai da Geografia" (o beato Nicolaus Steno), o pioneiro do rádio brasileiro (o padre Landell de Moura), filósofos da estatura de Alberto Magno, Roger Bacon e Guilherme de Ockham, os mais de 30 jesuítas que dão nomes a crateras lunares (em homenagem a suas contribuições às pesquisas sobre nosso satélite) e muitos, muitos outros cientistas que contribuíram grandiosamente à humanidade. Aliás, eram religiosos – e católicos – os indivíduos que constituíram aquilo que conhecemos por universidades e hospitais.
Por omissão ou por ignorância, em postura consonante com seu petismo, Verissimo [a ironia deste nome é incrível!] falha retumbantemente em seu palpitarianismo. Por caridade e piedade, suportamos a ignorância de pessoas "normais", cujas opiniões não ultrapassam seu círculo de vivência. Todavia, pessoas que detêm as prerrogativas de espaços midiáticos como o que ZH oferece a Verissimo devem ser corrigidas – caso falhem em seu mister  e constrangidas – se insistirem nos erros. Pois, só disseminam desinformações as pessoas mal-informadas e/ou mal-intencionadas. De uma forma ou de outra, essas pessoas não deveriam meter-se a opinar em público. Deveriam limitar-se a babar na gravata, como diria Nelson Rodrigues (este sim, de verdadeiro gênio). Na melhor das hipóteses, poderiam recolher-se a estudar aquilo sobre que pretendem opinar e bancar gostosura intelectual.
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Remeti uma versão resumida do texto acima à redação de Zero Hora. Grata surpresa: o jornal publicou minha contestação em sua edição de 02/12/14. (A foto é do amigo Marcel van Hattem.)



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***Eis o texto de Luis Fernando Verissimo:
A última do Papa Francisco é que nem o Big Bang desmente a teologia nem a teologia desmente o Big Bang. Um cristão pode aceitar a teoria do grande estouro que, segundo a ciência, deu origem ao Universo em um milésimo de segundo, sem abandonar sua crença na existência de um Deus criador de tudo. Pode-se até imaginar uma hipotética conversa do Papa, que o representa na Terra, com Deus, em que Este lhe confidencia:
— Francisco...
— Sim, Senhor.
— O Big Bang... Existiu mesmo.
— O quê?
— Existiu. Não adianta mais negar. A teoria está certa.
— O Senhor tem certeza?
— Meu filho, Eu estava lá.
— Então o Big Bang... foi o Senhor?
— Modestamente...
A Ciência não nos assegura que o Grande Nada que precedeu o Big Bang não fosse o tempo ocioso de Deus, indeciso sobre o que fazer da Sua vida. Crio um universo? Me resigno a esta imensa solidão, por toda a eternidade? E este meu poder sem limites, o que faço com ele? Se posso tudo, por que não fazer tudo? E Deus explodiu, criando tudo.
A vantagem de criacionistas sobre evolucionistas é que a Bíblia, onde está escrito tudo o que um criacionista precisa saber, pode ser lida como verdade incontestável ou como uma coleção de parábolas e metáforas. Assim, trechos que parecem cientificamente improváveis são explicados como sendo em linguagem figurada, com liberdade poética, e os outros, menos fantásticos, como fatos históricos. Não há nem poesia nem certezas iguais nas explicações científicas.
Há pouco uma sonda pousou num cometa e, entre as transmissões que mandou para a Terra, detectaram o que pareciam ser notas musicais. Não eram, mas por um breve instante de encantamento foi lembrada uma ideia antiga, a de um Universo sinfônico, e Deus como uma espécie de Beethoven sideral. O cometa traria, entranhado, algum resto da música das estrelas. Mas o ruído da sonda era só estática. Pena. Seria um ponto para o deslumbramento religioso contra a frieza da ciência.

3 comentários:

  1. Excelente, fostes no ponto exato da questão.

    Apenas diria que Veríssimo, assim como tantos outros, sofrem do mal de tantos que aí estão em nossas mídias que é o de acreditar na genialidade que lhes creditam o mar de aduladores.
    Funciona mais ou menos assim, resumidamente, o jornal me lança como alguém do qual as páginas merecem espaço, algum crítico do próprio jornal me chama de gênio, o que sei que não sou mas até aí é parte do jogo, o que vem a seguir são manifestações de outras pessoas que acreditam no elogio que me foi feito apenas por ter sido expressado no mesmo círculo ao qual faço parte e ao qual o leitor não faz parte, devendo portanto ser verdadeiro. Quando esse movimento toma maiores proporções e elogios chegam a mim por fontes indiretas eu já não percebo mais que que fui eu quem os lancei e passo a crer neles como legítimos.

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  2. Alguns ditados populares, como pretende ser LFV, apregoam que filho de peixe, peixinho é....... Nem sempre. Érico Veríssimo tinha uma estatura que seu filho pensa que tem, também. Apesar de horríveis, aprecio, pela verve, seus "desenhos" no Estadão de domingo

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  3. Prezado Mendes:
    Parabéns. Escrevestes na ZH tudo o que muita gente pensa sobre este Veríssimo. Realmente, o melhor seria se se aposentasse. Chega de baboseiras. Um "metido" a formador de opinião que inventa baboseiras em sua coluna, só para preencher espaço. Na maioria das vezes são comentários insossos, ocos, inconsistentes e que não dizem nada, tudo como o aval e o apoio de um jornal pertencente à classe da imprensa marrom que, obviamente, o apoia.

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