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domingo, 27 de janeiro de 2013

Chorar


O luto por Santa Maria em Morte della Vergine, de Caravaggio.


Manifestações oportunistas, incapacidade de refletir antes de julgar, hipocrisia. Em tempos de redes sociais, estas são algumas das consqüências residuais mais comuns às tragédias. Pensamentos tortuosos acerca dos fatos sempre existiram, mas o Facebook e demais canais permitem a verbalização das mais variadas incompreensões.
Sobre a tragédia de Santa Maria, além das inúmeras e louváveis manifestações de solidariedade, duas questões têm-me chamado à atenção sobremaneira e me fizeram quebrar o silêncio (que é a mais honesta forma de respeitar a dor alheia). [Não comentarei desatinos como “Onde está seu Deus agora?”. Isso já é matéria para patologistas.]

1 – A ação dos seguranças

Alguém acredita, realmente, que os seguranças, caso tenham de fato impedido a saída do público por alguns segundos, fizeram-no por maldade? Se sua resposta não for “Sim, eu acredito 100% que foi por maldade!”, cale a sua boca (ou cesse a digitação e postagem de suas análises mui fundamentadas) e inclua os seguranças em suas orações.
Várias conjecturas podem ser feitas, contra e a favor da ação dos seguranças. Todavia, tenhamos certeza de uma coisa: além dos parentes das vítimas, pouca gente deve estar sofrendo mais com essa tragédia do que os seguranças, que, por uma [suposta] leitura equivocada da situação, por [provavelmente] não haverem entendido no ato que o público corria em função de um incêndio, terão que conviver para sempre com o peso de, possivelmente, terem contribuído com alguns óbitos.

2 – O choro da president@ Dilma

Quem me conhece minimamente sabe que tenho por Dilma Rousseff e por todo o PT a mesma simpatia que tenho por fazer um tratamento de canal ou ser submetido a uma empalação. Contudo, nada justifica duvidar do choro da president@, como vários pessoas duvidaram. Nada! Nem mesmo o fato de ela ter participado de um grupo terrorista que assaltava e assassinava por um mundo melhor, tampouco o fato de ela fazer parte das maiores organizações criminosas que o Brasil e a América Latina já viram (o PT e o Foro de São Paulo, respectivamente).
O pensamento binário é tipicamente esquerdista, revolucionário, ideológico, doentio (tudo isso ao mesmo tempo). Dividir as pessoas entre totalmente boas e totalmente más é tão descaridoso, mendaz, simplista e pueril quanto dividir o mundo entre burgueses e proletários, exploradores e explorados. Ninguém é integralmente mau; quase ninguém é integralmente bom.
Hoje, quando vi a primeira entrevista da president@, acreditei naquele choro porque acredito no ser humano, porque acredito em mim. Eu peco sem parar, cometo os mesmos erros que praticamente todo mundo comete – e, hoje de manhã, chorei honestamente. Por que a sra. Dilma Rousseff não pode chorar honestamente? Ela pode. 
Isso não fará com que ela deixe de ser politicamente pérfida, não a isentará da culpa por atividades terroristas, não eliminará a gravidade de ser componente de um esquema de dominação continental e complacente com bandidos de várias índoles e nacionalidades. Não mesmo. Inclusive, é muito provável que a president@ e seu partido tirarão proveito político da tragédia. Mas ela pode chorar. 
Em tempos em que até os animais têm direitos (sem nada haverem exigido), defendo aqui o direito de até mesmo um petista ter e manifestar bons sentimentos.

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