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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Jacintos

Como sói ocorrer nos clássicos da literatura, descrições de tempos idos permanecem atuais em diversos contextos -- a qualquer tempo. É traço dos clássicos literários a abordagem de verdades imanentes à condição humana, que, por isso mesmo, são familiares a leitores de qualquer época. (Talvez seja esse o motivo de nas faculdades de Letras os canônicos serem tão desprezados, em favor de farsantes vários, que sustentam que verdades são relativas e podem ser construídas. Defecar entendimentos mil a partir de lingüistas e literatos da moda é muito mais confortável que entender e aceitar os opressores "1 + 1 = 2" dos grandes mestres da literatura.)

Em A cidade e as serras, Eça de Queiroz assim apresenta uma personagem menor (avô da personagem principal), com a qual, mesmo mais de um século depois, podemos identificar-nos:


<<Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa de D. Galião, descendo uma tarde pela Travessa da Trabuqueta, rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto  -- até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
-- Oh Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?
E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o Senhor Infante D. Miguel!
Desde essa tarde amou aquele bom infante como nunca amara, apesar de tão guloso, o seu ventre, e, apesar de tão devoto, o seu Deus! Na sala nobre da sua casa (a Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu Salvador" [...]. Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Palácio nos Algibebes, a gemer as saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinho. [...] E quando soube que D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro, Jacinto Galião correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrando furiosamente:
-- Também cá não fico! Também cá não fico! 
Não, não queria ficar na terra perversa de onde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal que levantava na rua os Jacintos!>>

Como o Jacinto de Eça, a média humana é composta por indivíduos necessitados de atenção e ávidos por notoriedade. Quantas vezes não consideramos sujeito de "bom papo" aquele que não mais que se pôs a ouvir nossas lamúrias? Já não estufamos nossos peitos, triunfantes, após meros cumprimentos de "personalidades"? Que vaidade causar-nos-ia sermos levantados do chão por um futuro rei!

Tal cidadão médio ressente-se de falta de reconhecimento -- e porque é medíocre não percebe que não é reconhecido por não apresentar qualidades dignas de láureas. Quando um sujeito de certa fama (ainda que somente em uma localidade) lhe fala ou toca é como se o mundo finalmente reconhecesse sua importância.

O único amigo que tenho em atividade política, um vereador, disse-me que importa mais na conquista do voto do cidadão, em geral, não a plataforma de intenções e promessas, a orientação política ou o histórico do candidato; segundo sua observação empírica, da qual compartilho, nada angaria mais votos do que olhar no olho do eleitor, apertar-lhe firmemente a mão e ouvir suas demandas -- chamá-lo pelo nome na frente de outrem, então, garante não só um voto, mas um cabo eleitoral voluntário. Em outras palavras, basta uma mínima atenção direta ao eleitor para que ele saia por aí, como um Jacinto levantado do chão, a bendizer seu candidato -- que, de fato, nada fez para provar seus predicados.

Somos, portanto, uma sociedade de Jacintos a adorar Senhores Infantes D. Miguéis que nos ofereçam migalhas de atenção. Sobretudo em eleições municipais (em função da proximidade geográfica dos candidatos), o eleitor escolhe "quem conhece e confia" e refere-se orgulhoso ao candidato com quem estudou ou jogou bola ou de quem foi vizinho. Imensurável mérito.

Ao escolher um gestor ou legislador público, afinidades pessoais deveriam estar entre os últimos requisitos (atrás de capacidade administrativa, conhecimento jurídico, idoneidade etc.) -- ou nem mesmo serem consideradas. Todavia, nós, ingênuos Jacintos, seguimos elegendo simpáticos D. Miguéis para gerir nossos municípios. A diferença é que o D. Miguel de Eça levantou aquele Jacinto do chão.

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