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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A resposta a 1984 é 1789



Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo. Eça de Queiróz


Em pronunciamento oficial na manhã de ontem, 3 de novembro de 2010, o presidente Lula disse muito sabiamente: "Espero que a oposição não faça com a Dilma o que fez comigo"

É óbvio que estou ironizando a fala de Vossa Indecência. A frase de Lula não foi sábia, foi abjeta. Foi fruto de sua insondável autopiedade. Desacostumado com a crítica, depois de anos de tanta bajulação injustificada, qualquer ataque à sua pobre pessoa, segundo ele próprio, é mais cruel que as chibatadas que Cristo recebeu.

Entretanto, tomada fora do contexto surreal em que foi proferida, a frase do presidente é corretíssima. Que a oposição seja outra, pois  que ela não seja covarde, omissa e passiva como foi nos oito anos de governo Lula.

Findadas as eleições no Brasil, em que tivemos o surgimento de um esboço de oposição somente aos 43 do segundo tempo (utilizando uma metáfora de nível lulático), vemos os Estados Unidos darem um exemplo de como falsos messias são desmistificados.



Barack Hussein Obama foi eleito como um profeta dos injustiçados e das minorias, requereu estatuto de superioridade por ser negro (quando o que importa é ser competente; ser negro, branco, amarelo ou verde é mera característica física) e tinha seu messianismo calcado em absolutamente nada – jamais fizera nada de útil que justificasse tanta badalação em torno de sua candidatura e posterior eleição.

No Brasil ocorreu fenômeno semelhante em 2002, à diferença de Luiz Inácio Lula da Silva haver requerido estatuto de superioridade por seu passado de pobreza. Nada mais justo: Lula é um dos poucos brasileiros que passou alguma dificuldade na vida, por isso, merece tratamento diferenciado. E isso em um passado muito remoto, aliás, porque desde que se tornou líder sindical, em meados da década de 1970, até a sua eleição como presidente, em 2002, Lula foi muito bem sustentado pelo PT.

Ademais, Lula e Obama em pouco se diferenciam: ambos traziam consigo tábuas da salvação, que se revelaram grafadas em tinta solvente. A diferença essencial está em seus eleitores e, sobretudo, em suas respectivas “democracias”.

Na democracia bicentenária americana as posições de situação e oposição estão claramente marcadas. Em termos gerais, não há proselitismos fisiológicos, ou seja, os conchavos político-partidários, que aqui são a regra, lá são a exceção.

Deste modo, em apenas dois anos, Barack Hussein Obama teve seu caráter salvadorífico completamente desmistificado pela força dos fatos. No Brasil, os fatos também teriam força suficiente para desmistificar o sr. Luiz Inácio. Todavia, à diferença dos EUA, os fatos brasileiros não encontraram voz, não tiveram a divulgação que colocaria o pretenso todo-poderoso Lula em seu lugar. Uma oposição covarde, uma imprensa omissa e um povo anestesiado acreditaram no choro de Lula e do PT  "deixa o homem trabalhar"  e não incomodaram Vossa Indecência.

Nossa “oposição”, salvo raríssimas e louváveis exceções (como a senadora Kátia Abreu, Tocantins, e o deputado federal Jair Bolsonaro, Rio de Janeiro), foi omissa, fraca, covarde e se viu constantemente acometida pela Síndrome de Estocolmo (bem como nossa isentíssima mídia, que já nas primeiras entrevistas com a presidente eleita trata de bajulá-la e reescrever sua história sombria). 

Apenas na reta final da campanha à presidência e agora, após a derrota, o candidato oposicionista, José Serra, deu mostras de que estaria disposto a fazer uma oposição de verdade. Não creio muito.

Oposição de verdade, pois, há no grande irmão do Norte.

Entre tantos sensos comuns de fundamentos débeis está o ódio mundial aos EUA. Ora, trata-se de uma inconteste democracia desde 1789; de um país que acolhe e dá oportunidades a imigrantes de toda parte (tente você, um ocidental, imigrar para um país islâmico); que assegura as diversas liberdades individuais; e que, por fim (haveria muito mais, mas isto é assunto para outro texto), não pára de oferecer-nos exemplos positivos em diversas áreas.

Não obstante, nossas eleições nos oferecem a valiosa lição de que uma democracia somente assenta-se firmemente sobre a pluralidade. Quando um presidente celebra que uma eleição será disputada apenas entre partidos de esquerda, como fez Lula sobre o pleito de 2006, é sinal de que o quadro é deveras preocupante. Como bem nos ensinam os fatos e registrou Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. E essa burrice acabou por contaminar o eleitorado brasileiro.

Perdido entre dois projetos de governo praticamente idênticos – diferenciados pelo fato determinante de que um, o do PT, tem horror à democracia e à pluralidade (vide as tentativas do governo de silenciar a imprensa e a célebre sentença de Lula clamando pela “extirpação” de um dos principais partidos de oposição) e o outro aceita o jogo democrático (de forma muito passiva, diga-se de passagem) –,  os eleitores brasileiros menos informados não teriam outra escolha a não ser votar em quem oferecesse o pão mais volumoso e o circo mais divertido.

Aos eleitores minimamente informados, coube a dificílima tarefa de filtrar as informações oferecidas pela imprensa, em sua maioria formada por ex-caras-pintadas aduladores de Vossa Indecência, e pelas campanhas políticas. 

De modo que os resultados das urnas mostram que o povo clama por uma oposição de verdade, pois mais da metade do eleitorado (os que votaram em Serra, em branco e nulo) recusou o projeto supostamente messiânico do PT.

E o que isso tem a ver com os EUA? Tem a ver que na última terça-feira, 2 de novembro de 2010, a oposição americana fez de maneira organizada, e por isso eficaz, o que parte do eleitorado brasileiro fez desordenadamente, e por isso ineficaz, no que se refere às urnas.


Por isso cito no título deste artigo, em tradução livre, o nome do livro de Alex Jones, The Answer to 1984 is 1789. De fato, a democracia e as liberdades individuais preconizadas em 1789, quando da promulgação da Constituição dos Estados Unidos, são a melhor resposta ao controle social, às tendências déspotas e autoritárias daqueles que querem legislar até o que os indivíduos devem pensar, representados em 1984 (distopia de George Orwell) e em governos como o do PT.


Voltando ao pleito americano, os Republicanos foram os grandes vencedores das eleições parlamentares nos EUA. E devem tal vitória, em enorme parte, ao movimento Tea Party

Fico por aqui e deixo que Nivaldo Cordeiro nos explique que movimento é esse, que brecou o lunatismo obâmico e ajudou o povo americano a ser representado como lhe interessa de verdade nas esferas do poder civil. O texto que segue foi escrito antes de nossas eleições, mas servem para o atual momento.



Quando eu escrevi a resenha do livro Missa Negra, do John Gray, o movimento do Tea Party ainda não tinha eclodido e o governo Bush estava em baixa. A coisa, no cenário mundial, parecia perdida, com a iminente eleição de Barack Obama. A Europa inteira estava (está) sob as rédeas da social-democracia. Eu não via futuro para os valores superiores da civilização ocidental, que continuava (continua) sob o assédio guerreiro do Islã.

Para piorar tudo explodiu a crise econômica mundial, que pegou a quase todos de surpresa. Veio com uma ferocidade nunca vista e os trompetes do apocalipse foram tocados.

Mas eis que, quando tudo parecia acabado e perdido, as forças vivas da civilização brotaram novamente. Tinha que ser lá, nos EUA, nessa bendita terra que tem a vocação de virar a guardiã da ordem em toda parte. Mesmo elegendo, por um soluço histórico, o representante da decadência esquerdista, ato contínuo o povo, de forma espontânea e inesperada, sem lideranças aparentes, sem condutores nomeados, seguindo o próprio instinto de sobrevivência, do certo e do errado, começou a derrotar os inimigos da civilização nos redutos historicamente por eles dominados. Vimos que o sucessor do senador Kennedy, depois de 47 anos, é um conservador.

Nesse exato momento os prognósticos eleitorais nos EUA dão como certa a derrota das esquerdas, para todos os cargos. Quem faria uma previsão dessas há um ano? Ninguém. Mas está acontecendo. A simples perda da maioria parlamentar já impôs a Obama um realinhamento na condução do governo. Ele não poderá mais governar de costas para a nação. Então ele mudou tudo no Oriente Médio, na política de relacionamento com a ONU (veja-se o que houve no Haiti) e mesmo na condução dos negócios internos. Sua ânsia socialista minguou de repente.

O movimento já tinha se manifestado antes, de forma imperceptível, na estrutura dos meios de comunicação. Os jornais impressos, quase todos nas mãos dos esquerdistas, viram sua tiragem despencar pela rejeição dos leitores. Os programas de TV de grande audiência provaram uma profunda e brusca mudança. O rádio, o velho rádio, teve uma injeção de vida insuspeita. Essa reviravolta transformou apresentadores desconhecidos em famosos e aposentou muito figurão do meio jornalístico. Foi um basta ao processo de estupidificação dirigida pelos decadentes, os promotores da sociedade permissiva e degradada.
O Tea Party veio a ser a consolidação desse processo subterrâneo na esfera da política. Os velhos valores da democracia liberal foram ressuscitados, em oposição aos valores propagandeados há décadas do igualitarismo socialista. Algo realmente sensacional aconteceu. Tudo mudou.

Caro leitor, o Tea Party tem uma base filosófica profunda em autores como Leo Strauss e Eric Voegelin. Esses filósofos, os maiores do século XX, conseguiram audiência em meio ao ruído socialista que é propagado por toda parte. E o que disseram esses homens? Que devemos voltar à tradição, grega e judaico-cristã, no âmbito dos valores. Que devemos consolidar as conquistas da democracia liberal no âmbito da economia. Que as instituições precisam ser moldadas para que o espaço de liberdade seja protegido e a ameaça totalitária seja expelida.
Um grito de liberdade atravessou a América e, espero eu, deve se espalhar pelo mundo. Até mesmo aqui, nessa terra de Lula lá e sua Coroa, a coisa pode sofrer uma forte reviravolta. Em nosso país nunca as pessoas conservadoras foram tão poucas e estiveram tão dispersas e desorganizadas. Quero acreditar que em nossos subterrâneos algo assim também esteja em gestação. É possível que nem tudo esteja perdido. A missa negra dos tempos parece estar acabando.




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