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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Chá de boldo


O senso comum brasileiro tem se apresentado de forma avassaladora, impiedosa, irredutível e deveras abrangente. Talvez por interessar-me por este fenômeno há pouco ou, talvez, por não ser tarefa fácil encontrar registros do mesmo, o fato é que não me recordo de outro momento em nossa história recente no qual o senso comum tenha agido tão fortemente – e em tantas frentes. Todavia, evidente que boa parte das convenções baseadas em achismos, aforismos, apotegmas e meras “estéticas opinativas” (chamemos assim as opiniões construídas em cima da busca de aceitação geral e de uma imagem politicamente correta) não são exclusividades dos brasileiros. São, sim, compartilhadas com “opinadores” do mundo todo, sem exageros – sejam eles leigos ou dos universos acadêmicos e midiáticos (formadores, dominadores e vigilantes das opiniões).

Caldas Aulete (Dicionário Digital, Editora Lexicon, 2008) assim define:


"Senso comum: modo de ver (conceitos, situações etc.) e agir de um grupo, sociedade etc., de acordo com experiência coletiva, costumes, padrões comuns etc., aceito como natural e por isso tomado a priori como válido, sem questionamento”.
São estes padrões comuns e costumes consagrados que formam quase que a totalidade das opiniões no Brasil e no mundo. Por prática, quando algum tema novo surge nas rodas de conversa, das faculdades aos botequins, em um primeiro momento os interlocutores se abstêm de emitir opinião, sob o subterfúgio de “primeiro inteirar-se do assunto, para depois opinar”. Na realidade, o que se faz é apenas esperar para inteirar-se da maneira como a maioria vai se manifestar, para seguir nesta confortável onda.
Um exemplo atual: quando se iniciou o mais recente conflito entre Israel e o Hamas, pouquíssimas pessoas opinavam a respeito. Hoje, quase um mês depois, qualquer um sente-se apto a afirmar, como se tivesse completo domínio da matéria e “com aquele ar de infinita superioridade que é o privilégio sublime da completa ignorância” Olavo de Carvalho) que “Israel está agindo com força desproporcional”. Evidente: primeiro o público ficou sem saber o que pensar, até nossas mídias e nossos formadores de opinião se manifestar; aí, então, as pessoas ganharam de presente um modo de ver pronto para o uso, imune de indagações (por ser a opinião de todos) e completamente seguro, sem margens para replicações (uma vez que se apresentou como verdade absoluta e inconteste).
Opiniões midiáticas moldadas e propagadas sabe-se lá por que ("uma mentira contada várias vezes torna-se verdade"...), como esta que condena peremptoriamente os ataques israelenses, são repetidas à exaustão. Por serem de fontes supostamente confiáveis, estas opiniões não são questionadas – e são assimiladas como verdades absolutas. As conseqüências disto são facilmente percebidas: milhares de quaisquer opinando de maneira irresponsável sobre qualquer tema; conceitos viciosos e infundados sendo apregoados como se incontestes fossem; e pessoas e/ou grupos se beneficiando (financeira, social ou politicamente) das falácias propagadas – em detrimento a outrem que podem vir a receber condenação automática sempre que o assunto estiver em voga - como no caso supracitado.
No embalo das sentenças arquitetadas, o mundo todo reverencia a chegada de Barack Hussein Obama ao poder dos EUA sem saber bem o porquê; o povo brasileiro aprova largamente o presidente Lula, como “nunca-antes-na-história-deste-país”, sem saber bem o porquê; o mundo condena Israel e apóia a causa Palestina, sem saber bem o porquê; cada vez mais pessoas se aliam às "forças do bem" que lutam contra o aquecimento global, sem nem desconfiar do porquê.

Em geral, seja o indivíduo opinante um suposto catedrático ou um néscio qualquer, não é costume que se verifique a veracidade e a confiabilidade da opinião emitida – e isso não é exclusividade do Brasil. Destarte, o que não é uma “verdade” fundada em falácias torna-se um relativismo canalha. Se não há “verdade” propagada e difundida e de fácil e segura defesa, incorre-se na incerteza sustenta por relativismos simplistas. Ademais, uma breve observação diária (recorrendo aos meios de comunicação [jornal, rádio, televisão, internet] e freqüentando a faculdade) permite afirmar que esta prática de disseminação de sensos comuns está concentrada na mídia e na comunidade acadêmica. São estes dois pilares que, não raro unidos, nos proíbem de duvidar, suspeitar, negar ou indagar questões aceitas com a maior facilidade e fidelidade (e até fanatismo) pelo grande público.

Atualmente, para ficar em alguns poucos exemplos, é impossível não ser automaticamente visto como um ser nefasto e desprezível se você negar o aquecimento global, o sucesso das políticas sociais e econômicas do Lula, os predicados messiânicos de Barack Hussein Obama e a causa palestina.

Sobre os embustes do aquecimento global, cada vez mais contestados pela comunidade científica mundial, Olavo de Carvalho, no Diário do Comércio de 29 de dezembro de 2008, nos traz:
“Recentemente, um grupo de 52 cientistas subscreveu um apelo urgente da ONU em favor de medidas drásticas para controlar o ‘aquecimento global’. O documento foi contestado por nada menos de 650 cientistas, para os quais o aquecimento global é apenas uma farsa montada para juntar dinheiro e poder político. Adivinhem qual das duas correntes tem mais fácil acesso às publicações acadêmicas.”
Ou seja, a opinião da maioria dos cientistas (que é a que interessa de fato, neste caso) é subjugada em favor da opinião de alguns poucos profissionais da área e de um sem número de formadores e seguidores de opinião que endossam as práticas daqueles que se aproveitam do pavor geral ante o aquecimento global. Organizações Não Governamentais que defendem o bem-estar ecológico de nosso planeta são muito mais rentáveis e lucrativas que muitas empresas por aí.

Também, pretender falar mal do Lula é algo no mínimo interessante. Basta entrar em qualquer site de notícias, abrir qualquer periódico jornalístico ou ligar a televisão para se ter um manancial diário de material para achincalhar, empulhar e maldizer nosso presidente – entretanto, nem os adversários políticos dele o atacam, com medo de perder votos, pois o povo aprova incondicionalmente o pai dos pobres (com o Governo gastando mais em inserções comerciais na televisão que muita multinacional, não fica difícil de entender tal prodígio).

Acerca de Barack Hussein Obama, novo fenômeno. Quase não há motivos para se falar bem dele. Entretanto, não só fala-se muitíssimo bem do presidente eleito como se estranha aqueles que não concordam e não se entusiasmam com Hussein Obama – como se discordar das características salvíficas de Obama fosse a mais pura maluquice. Leia atentamente as palavras que estarão entre aspas – você pode até não concordar com elas, mas, por favor, combata-as com veracidade e correção:
“Tudo, absolutamente tudo o que se escreveu e se falou a favor de Barack Obama é baseado exclusivamente em dois argumentos: a importância simbólica da eleição de um negro e as grandes esperanças que esse símbolo desperta nas almas dos crentes. Todos os méritos de Obama, enfim, com exceção de suas inegáveis habilidades cênicas, são futuros. Não se poderia escrever e realmente não se escreveu uma só linha em louvor dele com base no seu passado político, pela simples razão de que as únicas realizações dele antes e durante a sua breve passagem pelo Senado foram coletar dinheiro para ONGs esquerdistas, escrever cartas em favor dos projetos imobiliários de seu parceiro Tony Rezko e ajudar o genocida Raila Odinga, seu parente, a conquistar o poder no Quênia. Podem procurar à vontade, não encontrarão mais nada. Esse é todo o currículo do salvador. Nunca se apostou tanto em capacidades jamais provadas.” (CARVALHO, 2009).
Traga provas concretas e irrefutáveis da capacidade efetiva (não a capacidade teatral) de Hussein Obama e ganhe um carnê do Baú da Felicidade.

Por fim, o último exemplo da periculosidade que apresenta o alinhamento cego e automático às definições dos sensos comuns midiáticos, acadêmicos e populares, o assunto do momento: Israel x Palestina (Hamas). No Brasil, os partidos de esquerda comparam os israelenses a nazistas (que primor de lógica!) e engrossam manifestações em favor da Palestina; nos Estados Unidos, na semana passada, gritou-se nas ruas da Flórida: “Judeus, voltem para o forno”; Hugo Chávez expulsou o embaixador de Israel; e, muito provavelmente, você é a favor do cessar fogo e contra os ataques israelense, sem saber bem o porquê. Pouquíssimo tempo após o Holocausto, a ira contra os judeus se insere naturalmente no senso comum, como se fosse algo normal e, por que não?, necessário. Se buscássemos os fatos reais e entendêssemos que a questão não é tão simples quanto “tiraram os palestinos dali, natural que eles lutem contra isso”, não se cometeria tantas injustiças. Condenar Israel de “uso de força desproporcional” é bacana, está na moda, soa bonito e todo mundo faz. O difícil é perceber que o Hamas se infiltra covardemente na população civil, ataca indiscriminadamente da maneira que lhe é possível e utiliza práticas de terrorismo. Você considera errado Israel contra-atacar o Hamas como pode, uma vez que este também ataca aquele como pode. Agora, quando um único ladrão assaltar sua casa você certamente vai querer que a polícia mobilize todo seu efetivo na captura do delinqüente que privou-lhe de algum bem (para não falar na possibilidade de haver ferido um ente querido seu). Para fazer aquilo que você considera justiça, todo efetivo policial jamais será força desproporcional contra um ladrão que lhe tirou algo, certo?

A questão aqui não é a opinião das pessoas em si, mas como estas opiniões são construídas. Não acredito na promessa celestial que representa Barack Hussein Obama. Mas, entre discutir o tema com alguém que defenda o Sr. Hussein com propriedade e argumentos baseados na verdade e na correção dos fatos (se for possível) e discutir com alguém que concorde comigo apenas porque ouviu falar que o Obama não é bom, discuto com o primeiro.

O senso comum é cego e inconsequente. As opiniões por ele produzidas são simples de se entender, fáceis de se propagar e muito difíceis de se combater.
“Quando alguém reclama de dores no fígado, esta pessoa pode fazer um chá de boldo, que já era usada pelos avós de nossos avós, sem, no entanto, conhecer o princípio activo (substância química responsável pela cura) das folhas e seu efeito nas doenças hepáticas.” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Senso_comum).
Cuidado, portanto, com os chás de boldo que possam lhe oferecer.


Publicado originalmente no blog Taberneiro Veloz, por este autor, em 16 de janeiro de 2009.

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