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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Bestas e besteiras - e seus "actos"


O Lula assinando o Acordo que dá novas normas à Língua Portuguesa e que pretende padronizar seu uso nos países lusófonos é um espetáculo surreal.  

Ver o Lula assinando o Acordo Ortográfico é como ver o Alemão do Big Brother explanando acerca do acelerador de partículas; ou a Mulher Melancia divagando a respeito da crise no mercado global.

Mas não sejamos injustos. O Lula e seu Plano de Desenvolvimento da Educação almejam, honestamente, levar educação a todos brasileiros. Quase todos. O Lula, esse quixotesco já sem graça, quer educação para todos, menos para ele.

Ora, pois, vamos aos tristes e desalentadores fatos.

29 de setembro de 1908: o mundo perde um de seus maiores escritores, o Brasil perde seu maior gênio, Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS.

29 de setembro de 2008: para comemorar a morte de um dos indivíduos que melhor usou a língua portuguesa assassina-se oficialmente a própria língua portuguesa. Certo que ainda é um Acordo, não uma lei irrevogável. Mas suas pretensões assustam. Mais assustador que estas, somente a adesão de várias cabeças “pensantes” (?) a tal idéia.

Acordo Ortográfico foi oficialmente aceito pelo Brasil. Oficialmente sim, mas, oremos, não de fato. Alguns especialistas (professor Cláudio Moreno, entre eles) prognosticam que este Acordo Ortográfico tem tudo para não vingar – como não vingou o de 1945. Ocorre que em 1943 o Brasil assinou um acordo deste tipo, mas Portugal reclamou que tal contrato não atendia várias de suas demandas. Assinou-se, então, o acordo de 1945 – que não foi respeitado no Brasil, onde vigoram, ainda hoje, as premissas do acordo de 1943 (com algumas alterações datadas de 1971).

“Ooooooh, falamos sob a vigência de regras da primeira metade do século XX, que horror!!!”. Caros amigos, as regras gramaticais existem, e assim devem ser utilizadas: para nortear, para servir como uma padronização necessária, possibilitando, por exemplo, a comunicação entre um peão de estância do Alegrete e um seringueiro de Roraima. Não trata-se de uma sentença de morte, de uma obrigatoriedade inata ao indivíduo. A regra molda-se ao uso, não pode ser o contrário – como está acontecendo com o Acordo. Com ele, põe-se em curso um estupro lingüístico, forçando os falantes a uma adaptação desnecessária e anti-natural (ou antinatural?). Ou seja, traçar-se-á o caminho inverso ao da lógica: ao invés de o uso determinar a regra, a regra determinará o uso.

A utilização escrita e falada do Português mortifica-se aos poucos, comprometendo a preservação de nossas identidades culturais lusitanas e brasileiras. Não que estas se perderão na poeira do tempo, mas contatá-las tem sido tarefa cada vez mais árdua. O Acordo Ortográfico ignora as raízes culturais responsáveis pela formação das variáveis lingüísticas presentes em cada país que o acata, uma vez que padroniza regras que, até agora, eram particulares a uns e ignoradas por outros. A “herva” de Portugal passará a ser “erva”, como cá, por exemplo. Não é o fim dos tempos, mas não creio que seja salutar passar por cima de séculos de formações etimológicas que, entre outras coisas, apontam o quanto determinado grupo de falantes mantém ou modifica suas raízes lingüísticas.

O que fazer para que a população escreva melhor? Podemos ponderar sobre várias alternativas a esta pergunta. Todavia, é de um simplismo preocupante a alternativa encontrada pelo Acordo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que é basicamente transformar os erros correntes em acertos forçados – vide o caso do trema, dos acentos diferenciais e do hífen. A idéia básica é eliminar as supostas dificuldades em nome de, ao que me parece, uma socialização da língua. Entretanto, não é necessário muito estudo para perceber que a simples inversão de certas regras nada mais faz que estimular a preguiça do falante que ora reproduz seu pensamento em escrita. Se era difícil lembrar-se da necessidade de acento circunflexo na terceira pessoa do plural de verbos como “crer/crêem” e “ler/lêem”, anula-se então tal obrigação e escreve-se “creem” e “leem”. Duplo “o” tem acento? É “vôo” e “enjôo”? Bem, na dúvida, com tantas dúvidas, seguiu-se o caminho das facilitações indiscriminadas. E por aí vai. E por aí vai nossa riqueza gramatical e ortográfica.

Outra conseqüência, que parece até piada de português: se até agora tínhamos duas comunidades lingüísticas (Brasil e Portugal) que se entendiam “muito bem, obrigado”, apesar das diferenças em seus próprios Acordos Ortográficos, agora teremos um terceiro Acordo, cuja função principal é confundir (ainda que tentando simplificar) o que já estava claro.

A unificação proposta é rala, altera de forma equivocada questões importantes na utilização da língua. Se a discussão fosse por outro caminho, de se estabelecer normas que respeitassem a língua e seus falantes, não creio que seria má idéia uma unificação. Se em Portugal se escrevia “facto” e “acto”, agora escrever-se-á como aqui no Brasil: “fato” e “ato”. Ora, não são essas diferenças que podem prejudicar o entendimento por parte dos brasileiros de um texto escrito por um português. Diz o Presidente Lula que o Acordo será excelente para o mercado editorial, pois um livro editado em Portugal poderá ser tranqüilamente vendido no Brasil, por padronizar pontos como os acima citados. Bom, fica mais do que claro que o Lula, definitivamente, não lê! Não creio que nós temos dificuldades de entender o que quer dizer o vocábulo “acto” em uma obra de José Saramago, por exemplo. Da mesma maneira, nossos patrícios entendem limpidamente a utilização de “ato” em uma obra de Machado de Assis. As diferenças que podem impor dificuldades nas interpretações são de ordem vocabular. Palavras que para nós têm um significado, em Portugal tomam conotações distintas, e vice-versa: aqui “aposentado”, lá “reformado”; aqui “blusão”, lá “camisola”; aqui “calcinha”, lá “cueca”; aqui “pedestre”, lá “peão”. Estas diferenças permanecerão, com ou sem Acordo – até porque elas só fazem enriquecer o conhecimento de quem se depara com as mesmas.

Esse crime hediondo que se comete contra a cultura de cada uma das nações que tem o Português como idioma oficial é uma inversão completa dos valores lingüísticos. A pretensão é determinar a utilização da língua a partir de normatizações estipuladas verticalmente, em um ataque às propriedades e características próprias do uso da língua por parte de cada país da Lusofonia. Os pretextos para essa inconseqüente orgia cultural, pueril e populista, baseada em premissas pedagógicas e sociais deveras duvidosas, são os seguintes: simplificar e uniformizar as características lingüísticas do Português a fim de torná-lo mais acessível, compreensível às massas, combatendo, assim, o analfabetismo (não dará certo, a história mostra); e estreitar os laços culturais entre os povos (quem disse isso? Carla Perez?). E mais: SÃO LUÍS VAZ DE CAMÕES ME ACUDA!, ninguém vê que essa insanidade toda, no Brasil, está sendo homologada por um semi-analfabeto!

Não, não é retórica elitista defenestrando um representante das classes populares que chegou ao poder legitimamente. Não sou da elite, boa parte de meus colegas, professores e amigos também não o são. E, pasmem!, sabemos utilizar a língua portuguesa de forma a não necessitar de uma padronização forçada para bem expressarmo-nos. A senhora minha mãe optou por cuidar dos filhos e da casa por duas décadas. Feito isso, e beirando os cinqüenta anos, voltou aos bancos escolares, concluiu o ensino médio e formou-se em um curso técnico. O que, então, impediu um político profissional, sem mandato (e sem trabalhar) de 1989 a 2002, de, ao menos, concluir sua alfabetização!?!??!?!?!?!?!?!?!? Certo, ele nasceu em um pobre recôndito, blá-blá-blá… Mas ele foi deputado federal, se sustentou, sabe-se lá como (sabe-se sim, o PT explica), sem trabalhar, por treze anos e não arranjou tempo (nem motivação) alguma para estudar. Estudando e trabalhando, como imensa parcela da nossa sociedade, sinto-me apto a criticar um néscio preguiçoso que assina um documento da importância de um Acordo Ortográfico entre países que, MUITO possivelmente, ele mesmo não é capaz de interpretar – mas que rege questões de primeira importância no meu trabalho, nos meus estudos e na vida de todos que utilizam a Língua Portuguesa de alguma maneira.

Não é possível que aceitemos uma besta autorizando uma besteira que ela mesma não compreende.


Publicado originalmente no blog Taberneiro Veloz, por este autor, em 02 de outubro de 2008.

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