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quinta-feira, 15 de abril de 2010

A produção fecal de nosso tempo em foco

Publicado originalmente, por este autor, no blog Taberneiro Veloz, em 28 de março de 2010.

Não obstante minha reação inicial de repugnância, eu observava minhas fezes diariamente. Notei que o formato, a quantidade, a cor e o odor eram variáveis. Certa noite, tentei lembrar as várias formas que minhas fezes adquiriam depois de expelidas, mas não tive sucesso. Levantei, fui ao escritório, mas não consegui fazer desenhos precisos, a estrutura das fezes costuma ser fragmentária e multifacetada. […]
No dia seguinte comprei uma Polaroid. Com ela, fotografei diariamente as minhas fezes, usando um filme colorido. No fim de um mês, possuía um arquivo de sessenta e duas fotos -, meus intestinos funcionam no mínimo duas vezes por dia -, que foram colocadas num álbum. Além das fotografias de meus bolos fecais, passei a acrescentar informações sobre coloração. As cores das fotos nunca são precisas. As entradas eram diárias.

Trecho do conto “Copromancia”, de Rubem Fonseca.


No universo da blogosfera poucos bloggers têm a coragem que terei, de modo que desconfio de que nesse ambiente dedicado ao entretenimento e à informação jamais se tratou de tão impactante, polêmico e repulsivo assunto: a COPROLOGIA. Poder-se-ia utilizar o termo escatologia, mas para não confundir com sua acepção filosófica ficamos com coprologia [s.f. (sXX) 1 estudo dos adubos orgânicos. 2 m.q. 2 escatologia… (Houaiss, 2009)]. Enfim, dedicar-me-ei ao estudo das fezes.

Esse tema é tão inerente ao ser humano que até uma fase de nossa infância é ligada a ele. A quantidade de sinônimos, expressões, termos e gírias existentes para “fezes” é de tão grande extensão que fica claro que falo aqui de um assunto prosaico. Sobre as fezes, a merda, a bosta, criam-se fetiches, teorias e até histórias (como a de Rubem Fonseca, citada na abertura deste texto).

Entretanto, há de se ter cuidado. Vivemos em uma sociedade ambígua em suas valorações: não raro, indivíduos de comportamento escuso e condenável são os primeiros a manifestarem repúdio a assuntos como o que verso. Exemplo: qualquer consideração positiva sobre o nazismo recebe automaticamente a vaia uníssona da opinião pública. E essa reação é justificada, óbvio: o regime nazista matou cerca de sete milhões de pessoas. Entretanto, a sociedade que refuta qualquer manifestação positiva ao nazismo é a mesma que aceita, respeita e aplaude uma doutrina econômica e sociopolítica genocida, homicida, marginal, mentirosa, nefasta: o comunismo. Essa doutrina caracteriza-se como um movimento que se propõe a salvar o mundo, nem que para isso tenha que matar boa parte de seus habitantes, de forma que já matou – e segue matando – mais de 100.000.000 de pessoas em todo o mundo. Seguir essa doutrina torpe e asquerosa é mais que aceito: é uma tendência, é cult e, o pior, é legítimo. A mesma sociedade que recusa com razão o nazismo aceita com demência o comunismo.

De forma que essa sociedade, capaz de insanidades como a supracitada, possui em sua composição alguns indivíduos desonestos, mal-intencionados, maldignos, etc., mas que são os primeiros a se apavorarem com qualquer “palavrão” ou com qualquer assunto minimamente chocante, como a coprologia. Vivemos em tempos em que qualificar uma “merda” como “merda” é repreendido a priori, por mais razão que se tenha na análise.

O politicamente correto tomou conta de nossa ingrata existência de tal maneira que até mesmo as conversas mais corriqueiras são afetadas.

Outro dia, em um debate em sala de aula, no qual o professor incitava a mim e a meus colegas a manifestarmos nossas opiniões a respeito do Fórum Social Mundial, opinei “É uma grande merda, óbvio… Uma reunião de canalhas vagabundos [a maioria jovens graduandos (ou jubilandos?) de Ciências Sociais, na faixa etária entre 38 e 57 anos] que não sabem nem limpar a própria bunda, mas que querem construir ‘um outro mundo possível’”. Apavorado, o professor me disse que, por mais que eu não gostasse do evento, chamá-lo de “merda” tirava qualquer autoridade de minha análise. Surpreso, ainda perdi meu tempo argumentando: “Não sei por que, professor. Afinal, eu sento no vaso sanitário e, após algum esforço, limpo-me, levanto, olho para dentro do referido recipiente fecal e, vendo o produto de meu esforço, penso ‘eis uma merda’. Da mesma forma, uma análise minimamente lúcida e atenta sobre o tema permite a qualquer um olhar para o Fórum Social Mundial e dizer ‘hmm, eis uma merda’, naturalmente”.

Destarte, tal qual o personagem de Rubem Fonseca, farei de minhas palavras minha Polaroid, a fim de registrar, apresentar e analisar diversas matérias fecais que são atiradas sobre nossos pés diariamente. De fato, farei um estudo aprofundado das fezes produzidas por nossa sociedade, analisando-as com afinco e atenção, tal qual um coprologista.

E o primeiro tolete de merda a ser analisado nesse espaço possui ligação às fezes até mesmo em seu nome (uma coincidência fecal!). No próximo post, o primeiro inteiramente dedicado a estudos escatológicos em um blog de "variedades", falarei do senhor Marcos Bagno e de sua magnum opus, Preconceito linguístico – o que é, como se faz. Óbvio que o referido livro do linguista Bagno (que em italiano significa “banheiro”) não é de fato magnum, mas o é em vendas (é leitura obrigatória em praticamente todas as faculdades de Letras desse desafortunado país) e em sandices e delírios esquerdistas. É, pois, uma obra fecal saída diretamente das latrinas mais fétidas da Escola do Ressentimento*.

Portanto, até o fim da semana apresentarei um acurado estudo sobre esse pedaço de bosta chamado Preconceito linguístico – o que é, como se faz.


* Escola do Ressentimento: expressão irônica (e deveras precisa) utilizada por Harold Bloom, crítico literário, para classificar diversas correntes teóricas (o feminismo, o multiculturalismo, o gaysismo, o desconstrucionismo) que defendem a utilização da literatura - e de qualquer outra atividade artístico-cultural - como instrumento ideológico, em favor de supostas minorias e contra os "machos brancos colonialistas", culpados por todos os males da Terra (da extinção dos dinossauros ao aquecimento global, passando pela Era Glacial).

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