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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Estudos Coprológicos, parte I: Ensaio sobre a cegueira [ideológica]

Hoje inicio oficialmente a exposição de artigos de estudos coprológicos, conforme anunciado no texto anterior. O primeiro texto é uma adaptação de um artigo que fiz para uma cadeira (Introdução à Orgia Lingüística I-A) da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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PRONTUÁRIO



Amostra fecal analisada
Livro Preconceito lingüístico – o que é, como se faz, de Marcos Bagno.

Breve descrição da amostra

Analisa o uso da língua na sociedade, tendo como foco e eixo de suas considerações os preconceitos e mitos inerentes a esse uso. Como sói ocorrer em mentes treinadas pela Escola do Ressentimento (definição de Harold Bloom), o autor entende que ao incorrer na nefasta prática de se espantar ou mesmo se divertir com alguma trivial incorreção no uso da língua falada e até mesmo escrita você está agindo em favor da dominação exploratória das classes mais privilegiadas e configura-se como um monstro oligárquico, aristocrático, conservador, capitalista e neoliberal – e deverá ser encaminhado diretamente a el paredón.




Análise detalhada das fezes (composição, textura, odores, coloração)
Certa feita, José Saramago (outro belo tolete, que será analisado em momento oportuno) afirmou que nos basta a leitura das páginas iniciais de um livro, algo como dez páginas em cem, para aferirmos se vale a pena irmos adiante ou se devemos fechar o volume e devolvê-lo à estante. Na minha modestíssima opinião, Preconceito lingüístico – o que é, como se faz, habita a segunda categoria, dos livros que voltam para a estante sem serem lidos integralmente. Na realidade, o conhecimento do título da "obra" é o suficiente para legá-la ao esquecimento.

<< Resenhar livros ruins faz mal ao caráter. >> Harold Bloom


Mesmo aconselhado por Bloom e malgrado minha posição, tratei de ler todo o livro – tanto por haver de responder a uma demanda de estudos como por simples curiosidade masoquista e, ainda, em função de meus excêntricos interesses em estudos coprológicos (análise de fezes). Todavia, neste ensaio tratarei apenas das partes iniciais (Importante saber! e Primeiras palavras), pois nelas é possível identificar e decifrar o todo. Ademais, algo que é concebido em deturpação, conseqüentemente, será desenvolvido da mesma maneira. Portanto, ao identificar todos os equívocos, contradições, falácias e que tais das páginas iniciais, a leitura integral do livro faz-se desnecessária (se o intento for tão somente entendê-lo e descrevê-lo, tão previsível e repetitivo que é).
Assim, apresento a análise de trechos extraídos das duas primeiras seções da 50ª edição do livro, dividida em tópicos que versam sobre alguns dos pontos principais a serem criticados.
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1. Estupidez ideológica – o erro por opção
Marcos Bagno – escritor, professor, lingüista, assumido militante esquerdista (http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/textos-carosamigos.htm) – assim inicia a 50ª edição de seu Preconceito Lingüístico – o que é, como se faz:
Esta é uma edição amplamente revista, ampliada e atualizada do livro publicado inicialmente em 1999 e que em 2008 chega à sua 50ª edição. Por isso, quase se pode dizer que se trata de um “novo” livro, na medida em que procurei incorporar nesta nova versão os frutos mais recentes de minha reflexão teórica, prática docente e participação em projetos educacionais importantes e também de minhas pesquisas pessoais e discussões com outros colegas lingüistas e educadores. Me vali igualmente de tudo o que venho colhendo em minha permanente militância contra o preconceito lingüístico e em favor de uma educação em língua materna mais democrática e coerente com o estado atual das ciências da linguagem e da educação. (BAGNO. 2008, p. 9.)
Às primeiras considerações acerca da língua e das linguagens, os antigos gregos afirmavam que o mau uso da língua advém de más formulações de pensamento. Por mais que se possa querer combater tais definições, sempre existirá um Marcos Bagno exemplificando o quão plausível é a teoria helena. Mas, cabe perguntar: por que Marcos Bagno, a partir de seus problemas de pensamento, se expressa de maneira tão infeliz? Ocorre que Bagno se deixa envolver por todo o engajamento ideológico que faz questão de ostentar – e isso afeta o ser. Uma mente que se abre (ou se fecha?) às alucinações esquerdistas jamais se regenerará.
Conseqüências menos óbvias disso são perceptíveis no discurso de Bagno: confuso, com construções cansativas e com a fluidez de um secundarista meão dissertando sobre Camões. Entretanto, o que realmente preocupa é o que está marcado em negrito e sublinhado na citação: Bagno ERRA grotescamente. Temos um problema? A priori, certamente não. De fato, a oração, em seu sentido, é pouco ou nada comprometida com o problema de colocação pronominal em “Me vali igualmente […]”. Entretanto, é natural que o leitor se assuste, pois Bagno, em sua posição de professor de Faculdade de Letras, ou seja, um conhecedor da matéria, não poderia deixar passar um ERRO de tão fácil percepção. Certo, não poderia, mas, vá lá, ainda não é o fim do mundo, todo mundo erra. Todavia, seguindo com a leitura do livro, fica claro que Bagno comete esse ERRO propositadamente. Tem-se, inclusive, a impressão de que o autor anseia e deseja oportunidades para ERRAR, para mostrar que os ERROS apontados pelas Gramáticas Tradicionais não prejudicam a comunicação. Ora, com o mínimo de reflexão chega-se a tal conclusão, não é necessária tanta baba escorrendo pelos caninos, tanta pirotecnia e tanto furor juvenil.
Certo que esta atitude, ERRAR por querer (em seu texto), é tão pouco impactante e denota tanta rebeldia quanto a atitude de um jovem que picha um protesto na parede de seu próprio quarto. Contudo, o que preocupa é alguém como Marcos Bagno, com a considerável visibilidade que tem em sua área (sobretudo em função de um corporativismo estúpido que tornou seu livro leitura obrigatória em faculdades de Letras, que parecem destinadas cada vez mais a formar semianalfabetos ideológico), cometer idiotices por opção. Analisando a fundo, caso a caso, ninguém pode ser condenado por ser idiota, estúpido, imbecil. Problemas congênitos, de formação, de instrução e distúrbios cognitivos estão entre os causadores das atitudes que se apresentam abaixo da linha da mediocridade. Entretanto, optar de forma 
[supostamente] 
lúcida por ser um néscio, configura-se em um quadro patológico. Obviamente, sabemos que os ERROS cometidos e defendidos por Marcos Bagno são ideológicos (leia mais sobre isso no APÊNDICE deste artigo).

2. Ignorando a necessidade de uma unidade como norte
Voltando ao livro Preconceito Lingüístico, Bagno tem toda a razão em afirmar que as Gramáticas Tradicionais e suas verdades canônicas não devem tolher o uso da língua por parte dos falantes. Até porque não seria possível lograr tal intento.De fato, a mexerica do nordeste é a mesma fruta que a bergamota do sul e a *vergamota de algumas pessoas – e nisso não há problema algum. É dever de um estudioso da língua defender as variedades lingüísticas (ainda que elas não condigam com as verdades gramaticais), assim como é seu dever alertar àqueles que se utilizam destas variantes de que existe uma forma padrão, que permite a todos uma comunicação mutuamente compreensível e permite também a manutenção das características primordiais e essenciais da língua. Mas Bagno trata de enfraquecer e, absurdamente, ignorar a importância dos registros de norma-padrão:
(…) quero deixar claro que a norma-padrão não faz parte da língua, isto é, não é um modo de falar autêntico, não é uma variedade do português brasileiro contemporâneo. Ela só aparece, e ainda assim nunca integralmente obedecida, em textos escritos com alto monitoramento estilístico, nos quais, porém, já é bastante significativa a presença das inovações lingüísticas próprias da verdadeira língua dos brasileiros. (BAGNO. 2008, p. 12.)
Com isto, o professor Bagno habilita-se à condecoração de Profeta do Óbvio. É evidente que ninguém fala segundo a norma-padrão. Concordo com Bagno quando ele combate as Gramáticas que pretendem ser tomadas como vigilantes-mor da fala. Todavia, considero fundamental a existência de um guia, de uma representação da unificação lingüística brasileira. Podemos dizer que 99,9999999999999% da população brasileira fala a língua portuguesa. Sendo o Brasil um país continental, se o laissez-faire lingüístico proposto por Bagno prevalecer, dentro em breve, nós, gaúchos, teremos mais dificuldades para nos comunicarmos com nossos compatriotas amazonenses do que com nossos vizinhos hispanohablantes.
Por fim, Bagno recusa tudo o que já foi criado em termos de estudos gramáticos, se voltados para a normatização e a “prescrição”. É evidente que o controle da língua não deve ser levado adiante. Entretanto, a pólvora não foi descoberta pelos lingüistas – é importante dizer. Isto, pois, o imenso e qualificadíssimo trabalho feito por pessoas como Napoleão Mendes e Evanildo Bechara (para ficar em dois casos de estudiosos excepcionais) não deve ser tratado com o desrespeito juvenil aplicado por Marcos Bagno. Se até deste podemos tirar pontos positivos (como a revisão de alguns pontos de suas idéias), dos gramáticos tradicionais, então, a contribuição foi, é e sempre será de valor incomensurável. E, ainda, os gramáticos tradicionais mais antigos estão apoiados no álibi [se é que disso precisam] do pioneirismo. É muito fácil criticar um conjunto de idéias quando este foi construído durante séculos, à base de muita dedicação e estudo. É por isso que não desconsidero de todo o trabalho de Marcos Bagno, malgrado todos seus equívocos.
Quem inicia seus estudos lingüísticos tendo como norte [de uma bússola desregulada] o professor Bagno, tende a não perceber a necessidade de estudos técnicos pormenorizados na sequência da Faculdade de Letras. E afirmo isto também a partir de declarações de colegas que não veem legitimidade em se estudar, por exemplo, as questões morfológicas da língua, pois estão embriagados pelo elixir do relativismo lingüístico de Bagno.

3. Nacionalismo às avessas
As considerações de Bagno estão incrustadas de revoltas que só poderiam ser admitidas se fossem proferidas no calor da juventude, à [falta de] luz da ânsia por mudar a realidade e expressar suas importantíssimas idéias. São considerações que provam que a sabedoria nem sempre vem com a idade. Afirmo isto porque me parecem deveras pueris sentenças como estas:
De fato, parece que existia uma lacuna importante na bibliografia brasileira sobre questões de linguagem: livros escritos de forma acessível aos não-especialistas (e a futuros especialistas) que explicitassem, com a máxima franqueza, opiniões divergentes da ideologia lingüística dominante em nossa cultura – uma ideologia antibrasileira, repressora e autoritária, assumida e divulgada por gente que vê “erros” por todo lado e que acredita no mito da existência, num passado longínquo, de uma “época de ouro” da língua, quando todos falavam “certo” e ninguém “corrompia” a mística “língua de Camões”. (BAGNO. 2008, p. 10.)
Primeiramente, Bagno qualifica como “antibrasileira” a posição de, por assim dizer, vigiar o uso da língua. Pensemos logicamente, fazendo o duro exercício de somar um mais um. A cultura (de uma nação, no caso) é formada através de um processo histórico e constante de incorporações, no qual novas manifestações vão sendo incorporadas a outras agregadas anteriormente, às quais se integram em uma unidade superior. O mesmo ocorre com a língua. Se este movimento de incorporações da língua não encontra um norte, um critério de unidade seu particular, ele buscará essa referência externamente, sendo, então, absorvido. Sobre isto, afirma pontualmente Olavo de Carvalho , 1999, filósofo brasileiro e crítico de Marcos Bagno:
Se o prof. Bagno fosse um agente consciente do imperialismo, pretendendo dissolver a nossa unidade lingüistica para lhe sobrepor a americana, seu livro seria obra de inteligência, mista de maquiavelismo. Mas não: ele é apenas mais um esquerdista doido, desses que, ansiosos para expressar sua miúda revolta imediatista e cega, não sabem a quem servem em última instância e aliás não querem nem saber: falam o que lhes dá na telha e, de tempos em tempos, constatam, mais revoltados ainda, que tudo deu errado e seu mundo caiu. (Disponível em:

Por fim, ainda sobre este trecho, Bagno insiste no erro histórico de manter distância de nossas raízes culturais lusitanas. Teóricos como o professor esforçam-se sobremaneira em exaltar [muito justamente], sobretudo, nossas origens culturais indígenas e africanas. Na mesma proporção, esmeram-se em ignorar, por opção, a fundamental influência portuguesa sobre a cultura brasileira. Evidente, pois, assim, acreditam estar lutando em nome de nossos índios vilipendiados e dos africanos traficados e escravizados pela Coroa Portuguesa. Pois erram grandiosamente. Elegem o inimigo errado e perpetuam a prática nacional de procurar seu reflexo em espelho muito alheio – seja ele francês ou americano. Isto quando o espelho português é o mais acessível e condizente com a cultura brasileira.

4. Falácias, contradições e obviedades
Algumas falácias, contradições e obviedades encontradas em Preconceito lingüístico - o que é, como se faz já foram apontadas; mas não se esgotam.
Em obras científicas apresentadas sob lógica dialética, erros e contradições [não deveriam, mas] ocorrem por falta de informação, por informação incompleta e/ou não verificada ou por problemas básicos de entendimento por parte daquele que teoriza. Entretanto, ademais de se pretender uma obra científica, Preconceito lingüístico deve ser encarado como um panfleto político redigido por um adolescente enfezado de diretório acadêmico. Apesar destas condições, não deve ser amputado ao autor o dever de se responsabilizar pelas informações que registra.
Quando cita Aristóteles, sem a verificação honesta do que diz, Bagno incorre em erros elementares e perceptíveis até ao mais incipiente estudante das teorias do Estagirita:
Existe uma regra de ouro da Lingüística que diz: “só existe língua se houver seres humanos que a falem”. E o velho e bom Aristóteles nos ensina que o ser humano “é um animal político”. Usando essas duas afirmações como os termos de um silogismo (mais um presente que ganhamos de Aristóteles), chegamos à conclusão de que “tratar da língua é tratar de um tema político”, já que também é tratar de seres humanos. (BAGNO, 2008.)
A citação é completamente indevida, uma vez que para Aristóteles a política é o cuidado do bem comum (em casa, na urbe, na polis), é a atenção sobre a sociedade em si, no todo. Não é, pois, proselitismo ou adesão que interesse a uma parcela da sociedade, a um grupo ou a uma classe determinada. A sociedade, no estabelecimento, no entendimento e na manutenção de sua cultura, busca e sempre buscará uma referência. Bagno e seus seguidores podem dizer que estão defendendo o interesse de toda a sociedade (ou de sua maioria), mas não, não estão! Este comportamento confere com o que afirmo no Apêndice - Negação das verdades e inversão da realidade, ou seja, se a realidade não é a esperada por esses pensadores, eles não mudarão seus pensamentos, mas, sim, a realidade mesma.
Reitero aqui que o professor Marcos Bagno acerta ao criticar o posicionamento das Gramáticas Tradicionais e da norma-padrão como moldes que devem ser copiados na fala. Entretanto, Bagno (2008, p. 13) erra feio ao sugerir a eliminação sumária destas ferramentas:
[…] o ensino explícito da gramática, como objeto de reflexão e teorização, deve ser abandonado nas primeiras etapas da escolarização em favor de uma real inserção dos aprendizes na cultura letrada em que vivem […].
Ou seja, a sugestão é de que se elimine uma via de acesso do estudante à reflexões pertinentes que, se não aplicáveis ao uso cotidiano da língua, como no momento de comprar pão na padaria, podem servir como portas de acesso a uma realidade, a uma área de interesse totalmente nova ao estudante.
Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-múndi não é o mundo… Também a gramática não é a língua.” (BAGNO. 2008, p. 19.)
À exceção de profissionais exímios e extremamente experientes em suas áreas, quantas pessoas são capazes de preparar um bolo sem a orientação de uma receita? Ainda: é possível que se costure um vestido sem a observância de um molde? E, finalmente: qual a possibilidade de uma viagem pelo mundo ser bem sucedida sem que se consulte um único mapa? Também a Gramática pode [e deve] servir como orientação, como molde, como guia.
É certo que não é interessante que nós, professores, afoguemos nossos alunos em normas gramaticais. Ensinar através do uso e não usar através da norma parece-me uma boa idéia. Entretanto, parece óbvio que não é positiva a completa eliminação das teorias gramaticais da sala de aula. É o que Bagno (2008, p. 16) defende: “[…] se os professores de ciências não podem mais ensinar que Plutão é um ‘planeta’, por que os professores de português devem continuar a ensinar que você é mero pronome de tratamento […]?”.
Esta informação está distorcida por inépcia ou por vigarice do autor? Difícil definir o que é pior. Se não, vejamos. Se de Plutão, conforme as teorias astronômicas, foi retirada a condição de planeta, é dever elementar dos professores de ciências explicar os motivos e os critérios disso, situando no tempo (história) e no espaço (física). Esta análise diacrônica é importante e não dever ser desconsiderada – nem em ciências, nem em português. Ademais, análises pormenorizadas deste tipo podem acabar por despertar o interesse dos alunos em determinadas matérias e, assim, os levarem ao desejo de estudar a fundo e, posteriormente, ensiná-las. Há outros meios pelos quais determinados alunos se interessam mais por uma matéria que por outra – e todas elas devem ser compatíveis com as motivações pessoais do estudante. Cabe, então, ao professor e à escola apresentar aos alunos a gama de possibilidades e novas realidades. O estudante acessará, de fato, àquelas que lhe condizem. Não deve o professor eleger o que é importante ao aluno conhecer – a isto chama-se censura, prática muito bem conhecida e aplicada pelos marxistas ao longo da história.
Finalmente, Bagno dedica-se, em todo o livro, a combater a imposição da norma-padrão (das Gramáticas) e o domínio sócio-econômico exercido por aqueles que utilizam as variedades urbanas de prestígio. Com base nisso, vejamos esse primor de contradição:
[…] todos os aprendizes devem ter acesso às variedades lingüísticas urbanas de prestígio, não porque seja, únicas formas ‘certas’ de falar e de escrever, mas porque constituem, junto com outros bens sociais, um direito do cidadão, de modo que ele possa se inserir plenamente na vida urbana contemporânea, ter acesso aos bens culturais mais valorizados e dispor dos mesmos recursos de expressão verbar (oral e escrita) dos membros das elites socioculturais e socioeconômicas.
(BAGNO. 2008, p. 14.)
Então, Olavo de Carvalho nos ajuda a concluir:
Ai, meu Sacconi!
Bagno está corretíssimo no que diz nesta citação. Entretanto, esta entra em contradição em nível crítico com tudo o que é dito em todo o livro. É evidente que o fetiche dele é algo como a chegada do dia em que o erro, além de permitido, será institucionalizado – e aqueles que falarem ou escreverem o português com muita correção serão multados ou presos, algo assim. Mas Bagno tem noção da utopia disto e, assim, tem um acesso de realismo nesta parte sua análise.

Considerações finais
Dentre as diversas funções da escola (e de suas aulas), percebo uma como das mais importantes: apresentar aos alunos novas possibilidades. O estudante chega ao ambiente de ensino, no qual passará boa parte de sua infância e adolescência, carregado de experiências e vivências domésticas – dia a dia em casa, com os amigos da rua, etc. Essas vivências jamais se separarão do aprendiz, apenas somar-se-ão, em paralelo, àquelas que a escola oferecer. Destarte, ficando a escola na condição passiva de “respeitar a realidade do aluno”, não apresentando a ele nada além do que ele já conhece, respeitando e trabalhando tão somente em cima de suas realidades, entre elas a lingüística, não há como fazer uma apresentação destas novas possibilidades. Fica, assim, inviabilizado o projeto escolar de inserir o aluno em novos “mundos”. E é isto que preconiza Bagno, ao afirmar que a norma-padrão é completamente descartável, não considerando a mínima possibilidade de trabalhá-la e sugerindo “uma real inserção dos aprendizes na cultura letrada em que vivem”. Somente na cultura em que vivem? Não é preciso raciocinar muito para concluir o quanto isto limitaria o desenvolvimento intelectual do estudante.
Não ir além da realidade lingüísitica já conhecida pelo aluno não gera nada além de mais desigualdade.
Ademais de tudo que já foi abordado neste ensaio, há ainda um último registro. A abordagem de Marcos Bagno e a adesão à mesma acabam gerando um patrulhamento ideológico, uma vigília contra supostos (segundo critérios escusos) preconceitos. Surge, então, o preconceito do preconceito.
As tendências etnocêntricas dos seres humanos são evidentes. Estranhamos praticamente tudo o que nos é novo: a saída do ambiente familiar para a escola, mudanças de escola e de casa, inserção ao mundo do trabalho, etc. Ao nos depararmos com uma nova realidade, com pessoas que se vestem de maneira distinta da qual estamos habituados ou falam de forma diferente da nossa, é natural que ocorra estranhamento. O tipo de abordagem de Bagno, de um relativismo voraz e irresponsável, não respeita estas particularidades. É próprio das teorias esquerdistas/marxistas não enxergar o indivíduo, ver apenas o todo, o coletivo. E, vendo a partir deste prisma homogêneo, Bagno cria mais esta obra-prima da contradição:
Isso explica, decerto, a grande dose de indignação que em certos momentos passa à frente da reflexão científica serena e me faz assumir o tom apaixonado de quem não tolera nenhum tipo de intolerância, principalmente quando é fruto de uma visão de mundo estreita. (BAGNO. 2008, p. 22.)
O autor até tenta dissociar a passionalidade que o inspira da racionalidade científica. Entretanto, suas abordagens dificultam esta tarefa. Mas o que chama a atenção mesmo é a autodefinição, como alguém que “não tolera nenhum tipo de intolerância”. Creio que não seja necessária explanação acerca de tamanha contradição.
Ademais da comicidade deste trecho, Bagno deixa bem claro, através de todas suas considerações, que nós, estudiosos da língua, devemos ignorar nossos esforços e nossas evoluções em termos de uso da língua falada e escrita. Não podemos falar de forma minimamente correta, a fim de não excluir aqueles que, ou por opção, ou por demandas pessoais, não estudaram a fundo a língua, não acessaram a literatura por ela oferecida. A escrita, então, deve se aproximar da fala cotidiana, mais popular e coloquial possível. Afinal, não queremos constranger nem oprimir ninguém.
Por fim, para endossar o argumento central de Bagno, que diz que a língua culta é um instrumento de dominação das classes mais altas, nós, estudantes e profissionais das Letras, sabemos muito bem o que isso significa: afinal, estudamos diariamente a língua, a dominamos em nível “culto” e, reflexo imediato desse domínio, nossos ganhos financeiros por isso são de dar inveja a qualquer executivo da Toyota ou da Microsoft.

APÊNDICE
Negação das verdades e inversão da realidade
Originalmente, este era o ponto 2 do artigo. Entretanto, a fim de diminuir um pouco esse já extenso texto, passei esta parte para o apêndice, pois sua leitura é complementar e adicional. Segue.
Ocorre que Marcos Bagno faz parte de uma categoria de pensadores que não admite verdades – é um paladino do relativismo. Ainda que pensem, estudem, teorizem e problematizem as matérias examinadas, estes pensadores agem sob a ditadura do relativismo, sob a égide do Marxismo Cultural. Vale explicar.
Em poucas palavras, o Marxismo Cultural é uma invenção do italiano Antônio Gramsci, que consiste em atacar os pilares da cultura ocidental, os quais sejam: a Filosofia Grega, o Direito Romano e a Moral Judaico-Cristã.
Karl Marx (com o auxílio de Friederich Engels) proclamou ao fim do Manifesto Comunista, no qual sugere a derrocada da ordem capitalista, das relações de mercado, da propriedade privada e dos direitos individuais, em nome do Estado pleno como realização do poder do povo: “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”; com a idéia de que, assim que surgisse uma oportunidade, os operários e camponeses de todas as nações se uniriam para combater seu verdadeiro inimigo, o Estado opressor e o Capital explorador. Entretanto, na primeira Grande Guerra após a proclamação de Marx, os trabalhadores mantiveram-se fiéis às suas nações e, em vez de unirem-se sob o internacionalismo operário, alinharam-se aos seus compatriotas mais abastados e combateram outras nações – que, igualmente, lutavam com seus trabalhadores e burgueses lado a lado.
A lógica indica que quando a prática demonstra apodicticamente que uma tese está equivocada, os defensores desta tese tendem, obviamente, a revê-la, repensá-la e readaptá-la, ou, se for o caso, abandoná-la. Todavia, a mente Marxista funciona sob conceitos surreal-dadaístas: ao ver que os trabalhadores de todo o mundo não se uniram contra os opressores capitalistas e burgueses, ou seja, que sua teoria não se aplicara à realidade, os Marxistas concluíram que o problema não estava em sua tese, mas, sim, na realidade. Ou seja, toda a realidade cultural, política, filosófica e moral deveria alterar-se, adaptar-se e preparar-se para receber os bálsamos das teorias Marxistas.
Destarte, Antônio Gramsci e seus seguidores largaram as armas e passaram a atacar toda a cultura ocidental (e seus pilares supracitados). Em um processo gradual, no qual seus pensadores passaram a influenciar o pensamento a partir de obras literárias e agindo no meio acadêmico, o Marxismo Cultural acabou influenciando diversos movimentos. O movimento hippie, por exemplo, teve seu início nas manifestações contra a guerra do Vietnã. Tal conflito envolvia vietnamitas que queriam instaurar o regime comunista no país e americanos que, unidos a alguns povos locais, pretendiam manter a ordem. O movimento hippie, então, surgiu como uma voz forte e influenciadora no Ocidente, clamando pelo fim da guerra e pedindo para que o governo americano trouxesse seus jovens soldados para casa. Ora, não é preciso ser um gênio para saber a que tal medida isto beneficiaria aos revoltosos que pretendiam implantar um regime Marxista no Vietnã. “Faça amor, não faça guerra” era o lema hippie; o símbolo do movimento nada mais é que uma cruz invertida e com os braços quebrados. Em suma, quem iniciou tal movimento estava muito bem alinhado à práxis do Marxismo Cultural, de atacar e enfraquecer a moral e as verdades “burguesas”. Apenas para concluir, a título de informação: uma das consequências desta bela revolução vietnamita foi o extermínio de mais de um milhão de pessoas (v. Livro negro do comunismo, de Courtois, Werth e Panne) – isto em um país com a área equivalente à do Estado do Rio de Janeiro e com uma população de, atualmente, cerca de setenta e nove milhões de habitantes.
Chegando ao que nos interessa, temos que o relativismo é componente preponderante neste processo. Se o exemplo do parágrafo anterior apresenta um movimento que atacou a moral ocidental, o relativismo ataca a filosofia, o conhecimento, a formação do pensamento. Ou seja, foi relativizando as necessidades da guerra que os precursores do movimento hippie entenderam ser necessária toda uma mobilização. O relativismo nada mais é que a postura ou teoria de rechaçar a existência de verdades e defender que tudo é opinável – transita entre as possibilidades que ele mesmo cria de maneira irresponsável, ignorando a possibilidade (e, por vezes, a necessidade) de uma verdade. Na realidade, um ponto de vista pode se concentrar mais em um ou em outro aspecto – e relacionar-se mais ou menos com a realidade. Entretanto, esta é como é, uma só, independentemente da visão de quem a analisa. Obviamente, não é o mesmo assassinar e roubar que consolar e servir. Aí reside o problema: a verdade se encontra mediante a inteligência, ademais de, às vezes, nosso entendimento julgar erroneamente. Assim, se há o desejo de aprender ou compartilhar conhecimentos, também o relativismo é uma dificuldade, pois pode-se entender conhecimentos como verdades adquiridas. Se buscamos verdades (que, em muitos casos, são de necessidade primordial), então o relativismo é um obstáculo, pois assegura que não há verdades. Qualquer semelhança com a obra de Marcos Bagno não é mera coincidência.
Assim sendo, vemos o surgimento e a consolidação de políticas, teorias e culturas escancaradamente marxistas e de caráter relativista. Com base nas relativizações, os méritos foram deixados de lado, sendo substituídos por métodos completamente e perigosamente subjetivos – como, por exemplo, nas políticas de cotas em Universidades púbicas. Podemos citar também, e aqui chegamos de fato ao que nos interessa, o que sugiro denominarmos de relativismo lingüístico. E é em Marcos Bagno que o Brasil tem seu principal nome neste movimento. Basicamente, o relativismo lingüístico de Bagno trata de rever as questões de correções e adequações lingüísticas, afrouxando, por assim dizer, as amarras que mantêm a unidade e a coesão da língua.

Para os meninos da Febem ou para o lavrador de Ponta Grossa, pode ser bom ou pelo menos cômodo, a curto prazo, que os deixem escrever como falam, sem subjugá-los à uniformidade da norma. Subjetivamente, eles talvez se sintam, assim, menos excluídos. Mas, objetivamente, aí sim é que estarão excluídos, aprisionados na sua particularidade e sem acesso à conversação das classes cultas. Tudo depende de saber se preferimos enfraquecê-los pela lisonja ou fortalecê-los pela disciplina. (Olavo de Carvalho.)

Um comentário:

  1. Excelente o texto! Espero que se dissemine entre os acadêmicos de Letras. Admiro como desconstruíste as principais demências expostas no livreco desse senhor Marco Bagno.

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