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domingo, 18 de abril de 2010

Ambições estúpidas e falsas filantropias








Favelito, mascote da Copa do Mundo de 2014


Quando ouço e leio considerações acerca dos pontos positivos da organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos pelo Brasil, lembro-me da história da janela quebrada, de Frédéric Bastiat.


Pois bem. O argumento principal de quem entende esses eventos como positivos para este país é: em função da Copa e das Olimpíadas serão feitas obras que jamais seriam concebidas. Eis uma verdade, em se tratando de Brasil, que não deveria existir.

Um Estado sustentado por uma carga tributária astronômica como a nossa não deve prover seus cidadãos de obras fundamentais somente quando “a janela se quebra”.
         
A história da janela quebrada de Bastiat diz respeito a tragédias, o que, stricto sensu, não o são a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. (Claro que, lato sensu, se considerarmos a farra que se faz com o dinheiro público em oportunidades como essas, temos, então, um quadro trágico.) Contudo, se na alegoria de Bastiat o vidraceiro lucra com um trabalho que não teria se a janela não fosse quebrada, com a ocorrência da Copa e das Olimpíadas no Brasil “lucraremos” com obras que não existiriam sem esses eventos.

Assim como nas tragédias, na Copa e nas Olimpíadas executar-se-ão obras que já deveriam ter sido feitas há muito tempo. Nos dois casos, os entes públicos agem por motivos de força maior -- maior que suas consciências de obrigação de trabalharem conforme as premissas da Constituição Federal.

Se a janela de Bastiat não fosse quebrada, os “lucros” seriam maiores; da mesma forma, sem os gastos “para inglês ver” da Copa e das Olimpíadas “lucraríamos” muito mais.

Se, por exemplo, para Togo e Suazilândia jogarem em Porto Alegre o governo subsidiará a reforma do Beira-Rio e investirá na melhoria das vias públicas do entorno do estádio, sem os jogos da Copa poder-se-ia investir nas vias públicas de toda a cidade. Entretanto, o primeiro quadro será pintado para o mundo todo ver, enquanto o segundo seria admirado somente pelos indivíduos que sustentam essa gigantesca e inoperante máquina chamada Estado.

Como se deu esta perversão da lei? Quais foram suas conseqüências? A lei perverteu-se por influência de duas causas bem diferentes: a ambição estúpida e a falsa filantropia. Frédéric Bastiat.

Em um Estado inchado até não mais poder (afinal, todos os companheiros têm de estar bem-alocados), cuja arrecadação é um assalto institucionalizado, não poderia a lei tomar outro rumo que não o da perversão.

A falsa filantropia promovida pelo Governo, na qual o Estado finge que ampara aqueles que não trabalham, é celebrada com o dinheiro de outrem, daqueles que trabalham, investem e pagam seus impostos.

Da mesma forma dão-se as ambições estúpidas. Um país cujas metrópoles não estão preparadas para triviais chuvas não pode dar-se ao luxo de gastar o dinheiro do contribuinte em reformas e construções de estádios de futebol. Os lucros que a Copa e as Olimpíadas gerarão em turismo, por exemplo, poderiam ser multiplicadas várias vezes se os investimentos se dessem de maneira a garantir segurança e infraestrutura (aos nativos e aos visitantes) não só nos períodos desses eventos.

Infelizmente, acabamos aceitando uma ou outra janela quebrada para ganharmos alguns remendos de presente. 

Um comentário:

  1. não só remendos, isso é a clássica política do pão e circo, o que é mais fácil fazer muito e deixar apenas os mais "atentos" contentes, ou chamar a atenção para o pouco, com forte influencia da imprensa, para fazer com que o bonito encha os olhos de todos e esconda os pormenores.

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