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domingo, 20 de novembro de 2016

Torturando a realidade




Que a ciência experimental trabalha com recortes da realidade e, por isso, não pode fazer afirmações gerais sem muitas ressalvas, qualquer pessoa que pare para refletir a respeito por alguns segundos pode concluir. Trata-se de uma necessidade operacional da coisa, e o verdadeiro cientista sabe lidar com isso. O problema é que boa parte dos cientistas não apenas não atua com correção como extrapolou o conceito de Bacon, de que é necessário "espremer" os dados até que provem aquilo que se quer provar, como faria um torturador na necessidade de extrair uma confissão – seja ela verdadeira, seja ela falsa, proferida para acabar com a tortura.

Poucas áreas são tão férteis à manipulação dos dados experimentais quanto a Sociologia. É possível que sejam os cientistas sociais os maiores torturadores na ciência. Aproveitam-se desse trabalho sujo os políticos demagogos e populistas (ávidos por apoio e simpatia popular e necessitados de justificar suas ações e seus gastos) e os jornalistas militantes (ansiosos para que a realidade se encaixe em suas teses, de modo que possam veicular suas opiniões, em vez de notícias).

Pois um vídeo que “viralizou” esta semana foi todo construído em cima de uma sessão de tortura de dados, de amostras e da realidade. Assista ao vídeo, divulgado na página do Governo do Estado do Paraná: https://www.facebook.com/governopr/videos/890716684362421/. O negócio é repleto de equívocos científicos, da exposição de diferentes materiais a diferentes grupos ao tamanho da amostra em relação às conclusões. Mas o que assusta mesmo é a manipulação criminosa na condução da experiência.

Trata-se de um teste com grupos que são expostos a imagens de brancos e negros e que devem dizer o que essas pessoas estão fazendo. Primeiramente, o mediador mostra ao “Grupo 1” fotografias de pessoas brancas em situações comuns – correndo, limpando, jardinando etc. Depois, segundo o vídeo, mostra para o “Grupo 2” “AS MESMAS FOTOS, mas com pessoas negras”. De fato, as situações são as mesmas: corrida, limpeza, jardinagem etc.; de modo que o olho desatento não percebe a manipulação que se processa.
                                                                                
Acontece que, na realidade, os protagonistas das imagens mostradas ao segundo grupo se apresentam de forma muito diferente, o que induz a opinião dos entrevistados. O resultado é que o grupo 1 enquadra as pessoas brancas em atividades, digamos, mais nobres, enquanto o grupo 2 entende que os negros estão em situações depreciativas. Ou seja, o resultado obtido é precisamente aquele pretendido por quem queria divulgá-lo. Como todo experimento científico concebido não para verificar hipóteses, mas para ser um suporte ideológico, amoldando a realidade à opinião de quem o encomendou, esse experimento em questão não foi concebido como deveria, não partiu de uma pergunta: “Há racismo?” Não. Como em toda canalhice científica, partiu-se de uma afirmação; mais do que isso, de um desejo: “Queremos provar que há racismo.”

O experimento não foi conduzido para provar uma hipótese, mas para endossar um sentimento, uma opinião; e para reforçar uma impressão geral (que, aliás, até pode ser verdadeira). Da mesma forma, a edição do vídeo também foi calculada para induzir conclusões no espectador. As imagens mostradas ao segundo grupo aparecem muito mais rapidamente na tela, de modo que você não consegue captar mais do que o quadro geral. Por exemplo, você vê duas pessoas diferentes procedendo com uma limpeza, mas a mulher negra fica menos de um segundo na tela, tempo insuficiente para que se repare nas nuances (mas mais do que suficiente para o apressado usuário de internet chegar à conclusão desejada pelo manipulador).

Com base na observação cotidiana, podemos afirmar que há, sim, racismo. Manifestado de diferentes formas, o racismo é um erro individual, não uma política institucional, de um ente abstrato público ou privado (daí a nova bandeira, “racismo institucional”). Mas, como toda demagogia, o negócio soa bem, causa boa impressão – e não soluciona nada. Entretanto, para dar a impressão de que a coisa é como postulam os justiceiros sociais, os politiqueiros que encomendaram e os supostos cientistas que executaram o experimento apresentam-no como se as opiniões colhidas fossem representativas de uma totalidade. Ou há flagrante estupidez científica (porque sustentam conclusão geral a partir de uma amostra muito pequena e não-representativa do todo), ou há mau-caratismo criminoso (porque apresentam apenas as amostras que confirmam a tese).

O que o Governo do Estado do Paraná fez foi utilizar-se de uma estratégia de quinta categoria, apelando a um suposto embasamento científico para comprovar uma tese e, principalmente, “viralizar” um conteúdo, ganhar likes e compartilhamentos de pessoas ávidas por sacolejar uma bela bandeira na qual se lê: “OLHEM PARA MIM, SOU UMA BOA PESSOA, TENHO BONS SENTIMENTOS” Produziram um material sob medida para que opinadores apressados, que formam suas opiniões com o Jornal Nacional e o Fantástico, pudessem postá-lo no Facebook, com frases de efeito do tipo "Para refletir", "Isso a Globo não mostra" e "Hipocrisia agente vê por aki... Há corda Brasil!".


ANÁLISE DETALHADA

O negócio foi todo engendrado de maneira muito inteligente, para fisgar o público dinâmico e acelerado do Facebook, que, enquanto assiste à novela e fica de olho nas crianças, aterroriza-se com uma “prova” de “racismo institucional” e, segundos depois, compartilha uma receita de bolo, uma frase motivacional ou um vídeo de gatos fofinhos. Essas pessoas estão mal-acostumadas, após anos de manipulação e empulhação; mas, graças à mesma internet que reforça a confusão manicomial em que vivemos, podem fazer esclarecimentos como este.

Graças à internet, canalhices como a dos governantes paranaenses não passam mais incólumes. Canalhices, aliás, que só fazem atrapalhar quem realmente sofre com problemas como o racismo.

A seguir, detalho as comparações feitas pelos “estudiosos” contratados pelo Governo do Paraná e outras questões do tal “viral”. Comecemos com as imagens apresentadas.

Homens correndo. Grupo 1 diz que o branco está correndo; grupo 2 diz que o negro está fugindo. Imagens muito parecidas (inclusive, os modelos estão com roupas iguais); contudo, o homem branco tem um olhar distraído, apalermado, olhando para “o nada”, enquanto o negro parece assustado, mirando reto. Há, portanto, uma leve indução.
                                      
Mulheres mexendo com roupa. Grupo 1 diz que a branca é designer de moda ou consumidora; grupo 2 diz que negra é vendedora ou costureira. Realmente, as fotos são iguais; ambas as protagonistas estão bem vestidas e com a mesma expressão. Sem indução.

Homens de terno. Grupo 1 diz que branco é executivo ou profissional de RH; grupo 2 diz que negro é segurança de shopping ou motorista. Os modelos estão vestidos igualmente, mas se postam de maneiras muito distintas. O homem branco transmite arrogância e displicência: ombros caídos, postura relaxada; seu olhar, de baixo para cima, é de enfado; realmente, pode bem ser um executivo prepotente e estressado. Já o negro tem atitude de força e confiança: ombros erguidos, postura ereta; seu olhar, de cima para baixo, é de superioridade; tudo muito típico em um agente de segurança, de alguém que cuida dos outros; meu primeiro palpite seria que é um agente do FBI. Portanto, temos aqui uma comparação indutiva.

Homens trabalhando no jardim. Grupo 1 diz que o branco está cuidando do jardim de sua casa; grupo 2 diz que o negro é um jardineiro. Não é preciso argumentar muito; aqui, a indução é constrangedoramente flagrante. Está claro, pela fotografia, que o homem branco, que sorri e olha confiante, está em um momento de lazer, fazendo algo de seu agrado – como o é o ato de cuidar de seu próprio jardim. Já o homem negro está claramente desagradado, carrancudo, com os olhos semi-cerrados, contrariado – como estaria alguém que não faz mais do que cumprir uma obrigação que lhe desagrada. Em tempo: o negro segura uma pesada tesoura de jardim, enquanto o branco trabalha com uma ferramenta mais delicada; elementos que reforçam a diferenciação entre lazer e obrigação.

Mulheres limpando. Grupo 1 diz que a branca está limpando sua casa; grupo 2 diz que a negra é diarista ou empregada. Novamente, a indução é clara e evidente. Chega a ser patético, pois a mulher branca está limpando com uma felicidade e uma serenidade jamais verificada em nenhum ser humano enquanto tem de dar-se ao dever de limpar a casa, mesmo que seja a sua. Mas, a atitude da branca cumpre seu papel e induz a opinião dos entrevistados. A mulher negra, por sua vez, está séria, concentrada; suas mangas estão arregaçadas e ela usa luvas de borracha, o que indica trabalho pesado, situação diversa à da branca.

Mulheres pichando. Grupo 1 diz que a branca é “grafiteira”; grupo 2 diz que a negra é “pichadora”. As fotos são muito semelhantes. Não há indução.

Outras questões:

AMOSTRA INSUFICIENTE. Como já disse, as opiniões de oito pessoas não podem ser representativas do comportamento institucional geral. Além disso, temos pessoas diferentes opinando a respeito de materiais distintos.

CONDUÇÃO DAS RESPOSTAS. Em dois momentos fica claro que os entrevistados deram respostas induzidas pelas perguntas. A questão central era algo como: “Olhe para a imagem e diga o que a pessoa está fazendo.” Todavia, quando aparece o homem branco jardinando, um dos entrevistados diz: “Não parece ser empregado...”; depois, quando a mulher branca está “grafitando”, uma entrevistada diz: “Grafite é arte, não é ‘vândalo’” (sic). São comentários que extrapolam a questão central e indicam que a manipulação pode não ter se dado apenas com as imagens apresentadas, mas com as perguntas que conduziram as respostas supostamente racistas.

QUEM SÃO OS “ESPECIALISTAS”?
Na página do Governo do Paraná, muitas pessoas apontaram elementos de manipulação do teste. A resposta padrão da assessoria é esta: << O Teste de Imagem é um experimento real, que aconteceu na noite do dia 10/11 em uma sala de Focus Group, em Curitiba. Participaram do teste profissionais RH reais, que foram divididos em dois grupos distintos e emitiram opiniões espontâneas às imagens apresentadas pelo mediador do experimento. >>
Contudo, pesquisando na internet, não encontrei nenhum FOCUS GROUP de Curitiba. Agradeço se alguém tiver a informação de que eles existem de fato. Mas louco é quem duvida de que o Governo do Paraná tomou o nome de um método (“focus group”, grupo focal) para batizar a empresa dos supostos especialistas e dar às pessoas a confortável sensação de que o teste que embasa seus preconceitos do bem é confiabilíssimo. Considerando tudo que analisamos até aqui, é uma perversidade tão absurda quanto possível.

PRECONCEITO VELADO. Que existe preconceito entre as pessoas não se pode negar; inclusive, pode-se verificá-lo em quem se enfureceu com o vídeo porque acha que é depreciativo ganhar a vida limpando casas ou cuidando de jardins.

INVALIDEZ. No Grupo 1 há uma mulher que diz que “grafite é uma arte, não é ‘vândalo’” (sic). Só por essa manifestação o negócio todo já deveria ser invalidado, por contaminação das amostras e incapacidade intelectiva dos entrevistados.


–– MAIS MANIPULAÇÃO. O vídeo é encerrado com mais desinformações e fraudes, com apelo a números para reforçar ainda mais o discurso.

– Opiniões pessoais tomadas como evidências científicas: “82,6% dos negros afirmam que a cor da pele influencia na vida profissional.”

– Falsa imputação de crime: “Negros ganham 37% menos que os brancos” / “São a maioria entre os desempregados: 60,6%”. Como se isso fosse resultado de decisões de malvados e racistas empregadores. É mais provável que isso seja conseqüência de uma possível falta de preparo e capacitação, ocasionada – vejam só! – justamente por políticos demagogos que preferem capitalizar em cima de uma “raça”, em vez de fazer algo por seu desenvolvimento.

– Recorte dos dados: “[Negros] Ocupam apenas 18% dos cargos de liderança.” Estamos falando de negros como os das imagens do teste ou de “negros e pardos”? Pois, se forem como os das imagens, segundo o IBGE apenas 5,9% dos brasileiros consideram-se negros, o que revelaria que 18% de negros em cargos de liderança é um índice pra lá de positivo.

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EM RESUMO

Estupidez, demagogia e manipulação institucional – chega de fingir que é normal! Canalhice com o dinheiro público é crime.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Kicking asses around the word



Após a definição de que Donald Trump será o novo presidente da América, escrevi um artigo especialmente para quem ficou apavorado, com o coração machucado, e emitiu opiniões valiosíssimas, do tipo “Ain, zentsi, para o mundo que eu quero desce’ãm! Trump??? Alô-ôu!” Leia aqui: http://bit.ly/2fUb1UP.

Pois meu amigo Diego Baldusco tratou de traduzi-lo para o inglês, de modo que agora podemos dar uma enquadrada em histéricos do mundo todo.

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ARE YOU SAD, WORRIED?

Okay, you're in shock over the Donald Trump election. But do you know why? Is it because he's a rude, racist, macho, xenophobic? No, that's not why. Admit it. You are in shock, you hate Trump, because - sorry to inform - you are MANIPULATED by the mainstream media. Excuse me, but that's it.

Gee, do you really think that watching [untranslatable Brazilian media equivalent to CNN, NY Times and similar vehicles of misinformation] you are a great critic, a person whose feelings deserve attention? Yes, FEELINGS, because all I see is you saying "I'm in shock", "I'm terrified", "I'm sad". Are you, really? So what!? When it comes to politics, about decisions that affect the lives of billions of people, who puts the feelings first in any analysis deserves nothing else but a pacifier and a bib.

At this very moment you're thinking, "Oh, but you say that because you like Trump ..." HOW SHOULD I KNOW IF YOU LIKE TRUMP OR NOT !? I have never had personal contact with him. Look, [I bet this is not the case, but ...] it may be that even Hillary Clinton is a nicer person than Donald Trump, more "sweetheart-like", but that does not matter. These are feelings, not facts; Not even close to reality.

Please leave that football fan mentality aside and stop this bullshit of "being against something", "in favor of something", "liking something" or "disliking something". All the information for or against what is thought, a priori, must be deeply analyzed, proven, turned upside down, attested, until there are no doubts about it. Well, you make your opinion from headlines! In other words, your opinion is worth less than the loud crying of a hungry child. So swallow your feelings and grow up once and for all!

The information you have about Trump came straight from the mainstream media. You did not thoroughly investigate anything that terrified or shocked you. Admit it. Be sincere. You saw a headline here, another there, heard some specialist who never accurately described anything while you were making a horror face. And then you have formed your opinion - and there is no real fact that is able to change it.

"Trump is racist, homophobic, xenophobic ..." Have you seen Trump's beautiful and foreign wife? Have you seen any of the various videos of volunteers, employees and former Trump employees, black people, homosexuals, Latinos, immigrants, strongly defending the new American president? If you did not see any of these, take a look at the election results and check out who won in Florida, the most "Chicano" US state.

"Ah, but the wall ..." THE WALL ALREADY EXISTS. Trump just said he will tighten security mechanisms, build new ones (including widening border walls) and enhance control of those who can enter. Nothing different from what you do at your beautiful little home. Just like you, Trump and most Americans just want people to live in peace, honestly and productively. What a crime, uh?

"Ahh, but Trump was swearing, being rude during his speeches..." That's true. But, so what, Mother Theresa of Calcutta? By the way, do you know who else is freaking out about all this bullshit Trump is saying? Journalists and intellectuals who applauded feminists who broke holy images and stuck crucifixes on their butts, who applauded the murderous and destructive protesters in Brazil, who relativize the guerilla's terrorism... You are getting carried away by people who are selectively indignant, who first look at who did this or that before approving or condemning. To these people, it does not matter what is said but only who said. What really matters is that this one is part of "the club" and the other one is not. And these people are the source of your deepest feelings.

However, the most important thing here is that the media, in general, has not given information, but has shared its desires, wishes and clear support. Nothing more than that. And this happens for two reasons. The first, long ago established, is that journalists, be it in Brazil or in the US, in general, consider themselves to be left-wing; For the exercise of the profession, this (having a political position) is not a problem; The problem lies on the fact that they do not know how to act professionally and end up behaving like football fans discussing the results of the weekend matches. They mislead the real information, distort, lie, and mold the facts to their militant views.

But there is an aggravation: tens of thousands of e-mails from Hillary Clinton and her advisers, intercepted by the FBI, prove that several participants of mainstream media were reportedly at the service of the Democrats' campaign, including consulting Hillary's staff on the questions that should be asked to her and to Trump during the presidential debates (just one example). Learning about the American elections with these people is like asking at the bakery whether eating chocolate cake is good for your health or not.

By the way, these emails implicate the Clintons and their "guys" in:
– pedophilia,
– child abuse,
– financing of abortion,
– money laundry,
– perjury,
– obstruction of justice,
– negotiations involving the Clinton Foundation, etc.

Anyways, if we solely analyze the person of Donald Trump, there is nothing more than behavioral drawbacks against a successful entrepreneur and a politician with a solid national project. That is, an excellent candidate (which does not mean that he will actually be an excellent president).

If we compare him to Clinton and her minions, who accumulate crimes and serious crime charges, Trump becomes a mandatory choice (even if he was not an excellent candidate).

Here we have facts, not feelings. My feelings are of "Schadenfreude" in relation to the mainstream media, of hope towards the world, of joy to see the PEOPLE who live the real life burying the left. But it does not matter. What really matters are the facts. And the fact here is that you let yourself be fooled.

PS: it's clear that Trump can screw up. The point here is simply the fact that he is not the devil the beautiful people claim he is.

Como fazer inimigos e incomodar pessoas


Após a definição de que Donald Trump será o novo presidente da América, escrevi um artigo especialmente para quem ficou apavorado, com o coração machucado, e emitiu opiniões valiosíssimas, do tipo “Ain, zentsi, para o mundo que eu quero desce’ãm! Trump??? Alô-ôu!” Leia aqui: http://bit.ly/2fUb1UP.

Resultados após 24 horas da postagem.

Por causa desse artigo, que acabou “viralizando”, muitos leitores meus (mais de cinco, quase sete) vieram perguntar-me: “COMO SE ESCREVE UM TEXTOS DESSES?” Realmente, é uma questão interessante, pois não se refere apenas à qualidade do texto, a seu conteúdo e sua forma; refere-se, sobretudo, a seu resultado, ao nível de “engajamento” atingido, às dezenas de milhares de pessoas que se sentiram tocadas e se identificaram com o escrito.

Bom, há várias técnicas e estratégias para gerar “engajamento” do público. Conheço algumas, mas não sou usuário de nenhuma, exceto desta: falar a verdade, o que, em essência, nem é estratégia. Não é tão simples executar quanto o é dizer; mas o fundamento é simples, o fim é esse, ponto; dos meios, falaremos adiante. O fato é que o verdadeiro escritor, assim como o verdadeiro filósofo, não é um grande inventor, não é um gênio do impossível. O que ele faz é tão-somente organizar, estabilizar as verdades que, de alguma forma, circulam na alma de cada um e que são acessíveis a todos. A reação que o verdadeiro escritor busca em seu público não é: “Puxa, eu jamais pensaria nisso!?”, mas: “Puxa, é exatamente isso que eu penso, mas não sabia como dizer!” A mensagem que entra e permanece nas mentes e nos corações não é aquela que diz o que o leitor jamais haveria dito; é aquela que diz o que o leitor sempre quis dizer mas nunca conseguira.

Vivemos apressados, atabalhoados, sem prestar a devida atenção a nossas experiências, sem organizar os muitos dados que a realidade nos oferece. Contudo, nossa alma não cessa de captar informações várias; vai jogando tudo para dentro, como em um depósito de um acumulador compulsivo. Algumas pessoas até chegam a vislumbrar a unidade disto ou daquilo em sonho ou revelação divina, mas são poucos os afortunados. A maioria passa a vida sem organizar esse estoque, sem estabilizar o conjunto de realidades em uma verdade apreensível. O que o verdadeiro escritor faz é entrar nesse depósito e empilhar tudo direitinho, pegar cada informação que está jogada, colocá-la em seu devido lugar, relacioná-la com outras e organizar tudo em prateleiras asseadas e contempláveis.

É para isso que devemos refletir a respeito das coisas – para conseguir organizar ao menos uma ou outra prateleira de nosso imenso depósito mental, apreendendo a verdade disto ou daquilo. Se tivermos dom e treinamento, conseguiremos estabilizar uma ínfima parte dessas ínfimas compreensões em escritos e, então, faremos algumas pessoas dizer: “Eureka! Era exatamente isso o que eu queria dizer!”

Atingir esse resultado é coisa rara. Eu jamais conseguira obtê-lo com tanta gente ao mesmo tempo; e não me surpreenderei se não voltar a obtê-lo. Acontece que, a despeito de as verdades (que conformam o Logos divino) estarem acessíveis a todos, jamais contemplaremos a unidade real de tudo; não nesta vida. Pretender fazê-lo é estupidez; tentar é loucura. Por isso que Sócrates, modelo de todos que querem entender as coisas, apesar de haver entendido muito, disse: “Só sei que nada sei.”

Mas, enfim, é possível, de vez em quando, acertar na mosca. Eis o, digamos, caminho que tenho trilhado, sob a orientação do professor Olavo de Carvalho (e seu Curso de Filosofia) e à imitação dos grandes:


Formação do imaginário – experiência e literatura

Os fatos a que nos referimos em um texto são obras de pessoas reais. Temos, portanto, de entender esses agentes e seus contextos, sua realidade. E como conseguimos isso, se jamais conheceremos todos os agentes históricos e contemporâneos nem todas as conjunturas existentes? Temos de ir atrás dos padrões, dos símbolos, das representações. E há duas formas de formar esse imaginário geral que nos guiará nas situações específicas que queremos compreender e criticar. Uma, a melhor delas, é adquirindo experiência real; vivendo de forma atenta, reflexiva, para além do automatismo. O problema é que, mesmo que treinemos para isso, estamos limitados no tempo e no espaço; antes de vivermos, muita coisa já aconteceu; e, mesmo enquanto vivemos, não presenciaremos mais do que uma porção infinitesimal dos fatos que virarão história. Isso é muito óbvio – a experiência direta nos permite entender o mundo de forma geral e abstrata, mas não nos oferece material suficiente para entender as particularidades históricas. Para isso existe a literatura. Falo da boa literatura, é claro; do que é conhecido por "clássicos". Essa literatura, que jamais deixará de ser lida. Seu conteúdo é justamente a estabilização a que me referi no início deste artigo, é o registro da realidade em que foi concebida. Os grandes poetas e prosadores nada mais são do que gente que viveu e viu tudo exatamente da mesma forma que todos a seu redor viveram e viram. O que os diferencia é a capacidade de dizer, de registrar, de narrar o que todos a seu redor viveram e viram.

Além disso, a literatura nos ensina a escrever. Nas gramáticas temos os porquês a respeito das estruturas da língua, mas é nos cânones literários, nos muitos estilos e formas disponíveis, que aprenderemos a nos comunicar com eficiência e qualidade. Contudo, o principal sobre a literatura é que ela nos ensina a pensar, a compreender a realidade; é o fundamento do caminho para o verdadeiro conhecimento. Se articularmos essa base com uma experiência desperta, atenta, com uma contemplação permanente da realidade, estaremos muito próximos de, com sorte, atingir os corações e as mentes, falar aquilo que as pessoas de alguma forma já sabem e pensam, mas não podem expressar. Aliás, com sorte não; com graça.


Objeto e objetivo
Não estude nem se prepare para falar ou escrever. Isso é decorrência, é possibilidade advinda de competências adquiridas. Estude para entender o objeto de seu estudo, para conhecê-lo de fato, para acessar a verdade que há nele.


Acúmulo de informações específicas e gerais

Além de muita leitura literária, é indispensável acumular dados a respeito do objeto de interesse. É até estranho escrever isso, porque é algo muito óbvio; mas é tão óbvio quanto ignorado; se não o fosse, eu não precisaria escrever o artigo a respeito de Donald Trump, que ensejou este texto aqui. E não basta ler notícias ordinárias a respeito do objeto de seu interesse; é necessário aprofundar a compreensão, estudar a universalidade em que o objeto está inserido. Por exemplo: o caminho completo para compreender eventos políticos contemporâneos vai do detido estudo das teorias políticas à dinâmica, porém atenta, leitura de artigos e notícias atuais a respeito do seu objeto de interesse. Com isso, quando o insight vier, você estará pronto para estabilizá-lo em texto ou fala. Sem isso, você será como um músico criativo, mas sem habilidades desenvolvidas, que concebe maravilhosas composições em sua mente mas não consegue executá-las.


Graça
Sem Deus nada é possível. N’Ele tudo está e d’Ele tudo vem. Pode ser que haja quem consiga algo sem recorrer a Deus (jamais sem Deus; isso é impossível); eu não consigo – já tentei, por um tempo no passado, e falhei, miseravelmente. “Primeiro, oração; depois, expiação; em terceiro lugar, muito em ‘terceiro lugar’, ação” – São Josemaría Escrivá.


***

Enfim, para fazer inimigos e incomodar pessoas, basta encontrar a verdade e, depois, pronunciá-la. No início, pode ser que não sobrem muitos à sua volta, mas valerão incomensuravelmente mais do que os que se afastarem. E, depois que você tiver por hábito essa relação inegociável com a verdade, o "engajamento" e as "viralizações" serão conseqüências – muito menos importante do que se pode supor.

Trump eleito e você, triste.




Certo, você está em choque com a eleição de Donald Trump. Mas, você sabe o porquê disso? É porque ele é um grosseirão, racista, machista, xenófobo? Não, não é por isso. Admita. Você está em choque, você odeia Trump, porque -- lamento informar -- você se deixa MANIPULAR pela grande imprensa. Desculpa-me, mas é isso.

Pô, você acha mesmo que assistindo Jornal Nacional, lendo Folha, Zero Hora e G1 e curtindo Quebrando o Tabu você é um grande crítico, uma pessoa cujos sentimentos merecem atenção? Sim, SENTIMENTOS, porque tudo que vejo é você dizendo "Estou em choque", "Estou apavorado", "Estou triste". É mesmo, é? E eu com isso!? Quando se fala em política, em decisões que afetam a vida de bilhões de pessoas, quem coloca os sentimentos em primeiro lugar em uma análise não merece mais do que uma chupeta e um babador.

Inclusive, neste exato momento você está pensando: "Ah, mas você fala isso porque gosta do Trump..." COMO EU VOU SABER SE GOSTO OU NÃO DO TRUMP!? Jamais tive contato pessoal com ele. Olha, [aposto que não, mas...] pode ser até que a Hillary Clinton seja uma pessoa mais agradável do que Donald Trump, mais "gostável", mas isso não importa. Isso são sentimentos, não são fatos; não mais que tangenciam a realidade.

Deixe essa mentalidade de torcedor de futebol de lado, pare com essa besteira de "ser contra" ou "ser a favor", de "gostar" ou "não gostar". Toda informação a favor ou contra aquilo que se pensa a priori deve ser analisada profundamente, comprovada, revirada, atestada, até que não sobrem dúvidas a respeito dela. Ora, você forma suas opiniões a partir de manchetes! Ou seja, sua opinião vale menos que o choro de uma criança com fome. Então, engula seus sentimentos e cresça de uma vez por todas!

Todas as informações que você tem a respeito de Trump vieram diretamente da grande imprensa. Você não pesquisou a fundo absolutamente nada daquilo que o apavorou, que o deixou em choque. Admita. Seja sincero. Você viu uma manchete aqui, outra ali, ouviu algum especialista que jamais acerta algo fazendo cara de horror e, pronto, formou sua opinião -- e não há fato que a abale.

"Trump é racista, homofóbico, xenófobo..." Você já viu e bela e estrangeira esposa de Trump? Você já viu algum dos vários vídeos de apoiadores voluntários e de funcionários e ex-empregados de Trump, negros, homossexuais, latinos, imigrantes, defendendo fervorosamente o novo presidente americano? Se não viu, dê uma olhada no resultado das eleições e constate com cara de Guga Chacra com diarréia que Trump venceu na Flórida, estado mais "chicano" dos EUA.

"Ah, mas o muro..." O MURO JÁ EXISTE. Trump apenas disse que reforçará os mecanismos de segurança, construirá novos (incluindo a ampliação dos muros fronteiriços) e filtrará com maior rigor quem pode entrar. Nada diferente do que você faz na sua bela casinha. Assim como você, Trump e a maioria dos americanos só querem por perto pessoas dispostas a viver em paz, de forma honesta e produtiva. Que crime, não?

"Aie, mas o Trump falou palavrões, grosserias..." Isso é verdade. Mas, e daí, Madre Teresa de Calcutá? Aliás, sabe quem mais está afetando pavor contra as besteiras ditas por Trump? Jornalistas e intelectuais que aplaudiram as feministas que quebraram imagens santas e enfiaram crucifixos no traseiro, que minimizaram o "grêlo duro" de Lula, que aplaudiram os black blocs assassinos e destruidores, que relativizam o terrorismo do MST, que chamam de "ocupação" as invasões de escolas... Você se está deixando levar por pessoas que se indignam de forma seletiva, que primeiro olham para quem fez isso ou aquilo antes de aprovar ou condenar. Para essa gente, Jair Bolsonaro é um novo Hitler porque respondeu que NÃO estupraria a mulher que cometeu o gravíssimo crime de chamá-lo de estuprador; mas nada foi dito sobre Paulo Ghiraldelli haver desejado publicamente que Rachel Sheherazade fosse estuprada. Por que isso? Não importa o que Bolsonaro ou Ghiraldelli digam; importam que este é do clube e aquele não é. E essas são as fontes de seus afetadíssimos sentimentos.

Todavia, o mais importante aqui é que a imprensa, em geral, não tem dado informações, mas tem compartilhado seus desejos, suas vontades, sua torcida. Não mais que isso. E assim procede por dois motivos. O primeiro, há muito consabido, é que jornalistas, lá e aqui, em geral, consideram-se de esquerda; para o exercício da profissão, isso (ter uma posição política) não é problema; o problema é que não conseguem agir profissionalmente e comportam-se como torcedores de futebol participando de uma mesa redonda dominical sobre a rodada do campeonato. Sonegam as informações reais, distorcem, mentem e amoldam os fatos a suas opiniões militantes.

Mas há um agravante: dezenas de milhares de e-mails de Hillary Clinton e de seus assessores, interceptados pelo FBI, comprovam que grande parte da imprensa estava declaradamente a serviço da campanha democrata, inclusive consultando a equipe de Hillary quanto às perguntas que deveriam ser feitas a ela e a Trump nos debates (apenas um exemplo). Informar-se a respeito das eleições americanas com essa gente é o mesmo que perguntar na padaria do Zé Gordo se comer bolo de chocolate faz bem à saúde.

Aliás, esses e-mails implicam os Clinton e os seus em:
– pedofilia,
– exploração infantil,
– financiamento de abortos,
– lavagem de dinheiro,
– perjúrio,
– obstrução da justiça,
– negociatas envolvendo a Fundação Clinton etc.

Enfim, se analisarmos diretamente a pessoa de Donald Trump, não sobram mais do que ressalvas comportamentais contra um empreendedor pra lá de bem-sucedido e um político com um sólido projeto de nação. Ou seja, um excelente candidato (o que não significa que fará um excelente governo).

Se o compararmos com Clinton e seus asseclas, que acumulam crimes e gravíssimas acusações de crimes, Trump passa a ser uma escolha obrigatória (ainda que não fosse um excelente candidato).

Aqui temos fatos, não sentimentos. Meus sentimentos são de Schadenfreude em relação à imprensa, de esperança em relação ao mundo, de alegria por ver as PESSOAS que vivem a vida real enterrando a esquerda e os esquerdismos. Mas isso não importa. O que importa são os fatos. E o fato aqui é que você se deixou enganar bonito. Como dizem as minas empoderadas: APENAS PARE, SEJE MENAS.


Em tempo: é claro que o Trump pode vir a fazer besteiras. O ponto aqui é tão-somente o fato de que ele não é o demônio que pinta o diabedo jornaleiro.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Über estupidez




Em um país onde a criminalidade é a regra, uma empresa cujos funcionários, por força do ofício, estão especialmente expostos à violência deveria, senão treiná-los, no mínimo incentivá-los para que aprendem a defender-se, a reagir às muitas situações de risco que, cedo ou tarde, enfrentarão. Outra atitude minimamente inteligente seria privilegiar a contratação de funcionários prontos para a defesa da sua vida e a de seus clientes. Tendo um colaborador desses em sua equipe, então, deveria dar-lhe atenção especial e congratulá-lo quando ele agisse de forma assertiva.

Em vez disso, o Uber resolveu sacrificar seu funcionário no altar do politicamente correto, erigido pela imprensa e pela “intelectualidade” (os famosos “especialistas”). A empresa poderia ficar ao lado de seu empregado que, muito corajosamente, reagiu a uma ação extremamente covarde: em uma desvantagem brutal, o policial-motorista baleou três criminosos, salvando seu patrimônio e possivelmente sua vida e a de muitas outras pessoas. O Uber poderia ter ficado ao lado desse seu colaborador e da opinião da imensa maioria dos brasileiros, que não agüenta mais tanta criminalidade covarde, abusiva e impune. Em vez disso, a empresa preferiu ceder à pressão da cultura do politicamente correto, em troca dos aplausos de meia dúzia de sociopatas disfarçados de jornalistas e estudiosos, que, apesar de serem poucos, detêm o poder de maquiar a opinião pública.

A verdadeira opinião do público, do povo, nunca esteve tão distante da suposta opinião pública, essa que lemos, ouvimos e assistimos em boa parte de nossa imprensa. O povo quer segurança, quer justiça. Já os sociopatas da mídia e do judiciário são graduados em mentalidade revolucionária e autoritária, e tentam disfarçá-la com palavras, com um discurso que de forma alguma significam os objetos a que se referem: chamam de “democracia” a obediência a suas vontades; chamam de “golpe” o raro funcionamento das instituições democráticas; à covardia e à pusilanimidade qualificam como “prudência”; em suas mãos, a violência criminosa é mera “conseqüência das mazelas sociais”, mas a legítima e justa defesa de um cidadão aterrorizado é chamada “excesso”, “agressão”, “assassinato”. É a esses lunáticos que a classe política e o empresariado têm obedecido há anos, simplesmente porque eles detêm uma aparência de poder, porque são eles que fazem as capas de jornais e dão as manchetes na TV. Enquanto isso, a verdadeira opinião pública acede cada vez menos a esses veículos e segue cada vez mais perdida neste contexto de loucura.

Por fim, este caso do Uber é exemplar para quem está comemorando a estrondosa derrota da esquerda nas urnas. A política partidária é apenas um pequeno e apenas aparentemente decisivo aspecto da vida pública. A verdadeira guerra não é política, mas cultural. O que conduz a massa e determina as grandes decisões, tomadas por quem detém o poder político e o poder econômico (políticos e grandes empresários), é a cultura geral, aquilo que sai das mentes psicóticas de revolucionários acadêmicos, passa pela mídia, pelos tribunais e pelos gabinetes políticos e se solidifica entre a população. Felizmente (por motivos que já expliquei aqui ), essa solidificação tem sido muito lenta entre a população “comum”; já os poderosos não tomam decisão nenhuma sem antes prestar muita atenção ao noticiário e a o que dizem os “especialistas”.



Em tempo

Depois dessa, largarei o táxi gourmet e voltarei a usar o táxi normal. Fosse o policial motorista de táxi, o dono da frota cumprimentaria o herói e ainda lhe pagaria uma churrascada. Melhor fazer lucrar o tiozão tosco do táxi (piada do pavê, gelada na mesa, timão na TV, Seu Joaquim) do que a playbozada tecnológica (startup, MBA, Euro-trip, suco-detox, por-do-sol, Gregório Duvivier).

Leia a nota da empresa:

"Durante uma viagem solicitada por meio do aplicativo, a Uber proíbe o porte de armas de fogo de qualquer natureza a bordo do veículo, tanto para motoristas parceiros quanto para usuários. Qualquer pessoa que viole esta proibição perderá o acesso à plataforma da Uber."

Ou seja, aderem a um desarmamentismo simplista e estupidamente intransigente, para agradar a beautiful people da qual fazem parte, exigindo que seus funcionários não se protejam. Talvez pretendam que seu "capital humano" se defenda com balinhas e água.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Por que ler literatura

Montagem maldosa mas pra lá de verossímil.



“O brasileiro não lê”; lugar-comum usado e abusado. Todavia, esse é um problema menor. Pior do que não ler é ler errado. Por aqui, os mais letrados vão pouco além de bibliografias especializadas de suas áreas de pesquisa e atuação profissional. Entre quem se envolve com política, desde os meramente interessados até os protagonistas, lê-se, creio, mais do que a média, mas não como se deveria. Em geral, até temos contato com materiais de qualidade; mas são ensaios, estudos, análises; e muito disso é tradução. Lemos pouquíssima literatura de língua portuguesa, de quem escreve realmente bem em português. E este é um fato problemático em demasia, porque é com os clássicos de nossa língua que aprendemos a escrever e obtemos as ferramentas com as quais interpretamos a realidade. (Não é por acaso que dentre um grupo amplamente politizado – a, digamos, “nova direita” – se considere literatura de qualidade a obra “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand, que não passa de uma ficção panfletária, sendo, portanto, qualquer coisa, menos literatura – e a qualidade atribuída fica por conta de um adesismo simplista, cujo fundo são os resquícios da mentalidade revolucionária predominante.)

Além de prejudicar-nos no uso da língua, a falta de literatura é um problema – já amplamente imperceptível – mesmo para a compreensão sociológica, para as análises políticas, para pensar criticamente a respeito do que quer que seja. Desenvolvemos na escola a capacidade de sermos críticos, mas não nos dão as ferramentas para isso. Nossas crianças sabem separar o lixo e respeitar as “diversidades”, mas não conseguem sequer organizar seus pensamentos a respeito disso; saem da escola prontas para passar a vida vagando por aí, a dar opiniões sobre tudo, sem entender nada, limitando-se, sem perceber, a repetir chavões e esquemas pré-fabricados, entregues pela escola e pela mídia. Aos 12 anos de idade, o degas houve um professor descolado dizer que a Igreja matou cinco trilhões de pessoas e, como a coisa soa bem aos ouvidos rebeldes da juventude, leva a história para o resto da vida. Julga-se, então, um grande crítico da opressão religiosa, sendo incapaz, contudo, de articular sua crítica em uma frase de duas orações. É apenas um exemplo. O Brasil é um país de semi-analfabetos que, porém, acreditam-se especialistas em tudo.

Contudo, mesmo no referido grupo reduzido de pessoas um pouco mais instruídas, interessadas em política, a situação não muda muito – ao menos no que diz respeito à apreensão da realidade. Os ensaios, as críticas e as análises (geralmente a respeito da ordem do dia) que compõem o escopo de estudo desse nicho dizem respeito a fatos, a acontecimentos, a experiências reais. Entretanto, a tendência é que esses acontecimentos não sejam integralmente compreendidos, pela simples razão de que consumimos análises sem antes havermos adquirido base experiencial. Refletimos, então, a respeito de coisas que não entendemos verdadeiramente. Contemplar o o quê dos fatos históricos sem sequer desconfiar do como é perda de tempo, é “úlcera mental” (ou seja, é uma "digestão" sem ter o que digerir). Não é por acaso que o professor Olavo de Carvalho dedica a primeira parte de seu curso de Filosofia para explicar que, antes de darmos pitacos sobre qualquer coisa ou sairmos estudando Filosofia, é fundamental que leiamos muita literatura, porque é ela a base para a compreensão dos fatos da realidade.

Os fatos são obras de pessoas reais. Então, por mais que nos detenhamos em análises políticas várias, estaremos sempre na superfície dos problemas se não tivermos ao menos uma pista das pessoas reais que protagonizaram os fatos analisados. E como conseguimos isso, se jamais conheceremos todos os agentes históricos e contemporâneos? Temos de ir atrás dos padrões, dos símbolos, das representações. E há duas formas de formar esse imaginário geral que nos guiará nas situações específicas que queremos compreender e criticar. Uma, a melhor delas, é adquirindo experiência real. O problema é que estamos limitados no tempo e no espaço; antes de vivermos, muita coisa já aconteceu; e, mesmo enquanto vivemos, não presenciaremos mais do que uma porção infinitesimal dos fatos que virarão história. Isso é muito óbvio – a experiência direta nos permite entender o mundo de forma geral e abstrata, mas não nos oferece material suficiente para entender as particularidades históricas. Para isso existe a literatura. Falo da boa literatura, é claro; do que é conhecido por "clássicos". Essa literatura, que jamais deixará de ser lida, contém a estabilização, o registro da realidade em que foi concebida. Os grandes poetas e prosadores nada mais são do que gente que viveu e viu tudo exatamente da mesma forma que todos a seu redor viveram e viram. O que os diferencia é a capacidade de dizer, de registrar, de narrar o que todos a seu redor viveram e viram – tanto de forma geral, quando tratam do ser humano, como de forma específica, quando tratam dos seres humanos inseridos em contextos históricos, geográficos e sociais.

A literatura, portanto, nos ensina a escrever; mas o principal é que nos ensina a pensar, a compreender a realidade; é o fundamento do caminho para o verdadeiro conhecimento. Por isso, deixem para ler os jornais do dia, as notícias e as opiniões depois de ler algumas páginas de literatura. Falo isso em termos gerais (para que coloquemos a formação literária em primeiro lugar) e específicos, em termos de rotina – comece o dia lendo literatura antes de ler jornais. Com o Julién Sorel de Sthendal, o Policarpo Quaresma de Lima Barreto, O Raskolnikov de Dostoievski e o Bentinho de Machado de Assis entenderemos com muito mais facilidade os Zé Trambique e os João Sem Braço do nosso dia-a-dia. Podem apostar! Com uma boa base literária é possível parar de perder tempo com fatos jornalísticos ordinários, repetitivos e enfadonhos, porque o sujeito fica treinado para compreender as situações específicas a partir dos substratos gerais adquiridos. Bastarão as manchetes e detalhes imprescindíveis e sobrará tempo para estudos muito mais úteis e importantes.

Recentemente, o Olavo publicou isto:

“Por caridade, não deixem a língua portuguesa do Brasil se estragar ainda mais. Estudem a boa e velha "Gramática Metódica" do Napoleão Mendes de Almeida, leiam José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Leo Vaz, Herberto Sales, Gustavo Corção e Marques Rebelo e defendam o que é patrimônio cultural seu.”

Motivado por isso, escrevi-lhes a reflexão acima e ofereço-lhes a lista abaixo, com títulos de excelência da literatura portuguesa, para que, em primeiro lugar, escrevamos cada vez melhor; e, além disso, entendamos melhor esse ser tão peculiar que é o brasileiro:

CAMILO CASTELO BRANCO
Amor de perdição (1862)

MACHADO DE ASSIS
Toda a obra

JOSÉ GERALDO VIEIRA
A Mulher que Fugiu de Sodoma (1931)
A Ladeira da Memória (1949)
O Albatroz (1951)

GRACILIANO RAMOS
São Bernardo (1934)
Vidas Secas (1938)
Infância (1945)
Memórias do Cárcere (1953)

GUSTAVO CORÇÃO
A Descoberta do Outro
Lições de Abismo
O Século do Nada

MARQUES REBELO
Marafa (1935)
A Estrela Sobe (1939)
Três Caminhos (1933)



Por que ler literatura

Montagem maldosa mas pra lá de verossímil.



“O brasileiro não lê”; lugar-comum usado e abusado. Todavia, esse é um problema menor. Pior do que não ler é ler errado. Por aqui, os mais letrados vão pouco além de bibliografias especializadas de suas áreas de pesquisa e atuação profissional. Entre quem se envolve com política, desde os meramente interessados até os protagonistas, lê-se, creio, mais do que a média, mas não como se deveria. Em geral, até temos contato com materiais de qualidade; mas são ensaios, estudos, análises; e muito disso é tradução. Lemos pouquíssima literatura de língua portuguesa, de quem escreve realmente bem em português. E este é um fato problemático em demasia, porque é com os clássicos de nossa língua que aprendemos a escrever e obtemos as ferramentas com as quais interpretamos a realidade. (Não é por acaso que dentre um grupo amplamente politizado – a, digamos, “nova direita” – se considere literatura de qualidade a obra “A revolta de Atlas”, de Ayn Rand, que não passa de uma ficção panfletária, sendo, portanto, qualquer coisa, menos literatura – e a qualidade atribuída fica por conta de um adesismo simplista, cujo fundo são os resquícios da mentalidade revolucionária predominante.)

Além de prejudicar-nos no uso da língua, a falta de literatura é um problema – já amplamente imperceptível – mesmo para a compreensão sociológica, para as análises políticas, para pensar criticamente a respeito do que quer que seja. Desenvolvemos na escola a capacidade de sermos críticos, mas não nos dão as ferramentas para isso. Nossas crianças sabem separar o lixo e respeitar as “diversidades”, mas não conseguem sequer organizar seus pensamentos a respeito disso; saem da escola prontas para passar a vida vagando por aí, a dar opiniões sobre tudo, sem entender nada, limitando-se, sem perceber, a repetir chavões e esquemas pré-fabricados, entregues pela escola e pela mídia. Aos 12 anos de idade, o degas houve um professor descolado dizer que a Igreja matou cinco trilhões de pessoas e, como a coisa soa bem aos ouvidos rebeldes da juventude, leva a história para o resto da vida. Julga-se, então, um grande crítico da opressão religiosa, sendo incapaz, contudo, de articular sua crítica em uma frase de duas orações. É apenas um exemplo. O Brasil é um país de semi-analfabetos que, porém, acreditam-se especialistas em tudo.

Contudo, mesmo no referido grupo reduzido de pessoas um pouco mais instruídas, interessadas em política, a situação não muda muito – ao menos no que diz respeito à apreensão da realidade. Os ensaios, as críticas e as análises (geralmente a respeito da ordem do dia) que compõem o escopo de estudo desse nicho dizem respeito a fatos, a acontecimentos, a experiências reais. Entretanto, a tendência é que esses acontecimentos não sejam integralmente compreendidos, pela simples razão de que consumimos análises sem antes havermos adquirido base experiencial. Refletimos, então, a respeito de coisas que não entendemos verdadeiramente. Contemplar o o quê dos fatos históricos sem sequer desconfiar do como é perda de tempo, é “úlcera mental” (ou seja, é uma "digestão" sem ter o que digerir). Não é por acaso que o professor Olavo de Carvalho dedica a primeira parte de seu curso de Filosofia para explicar que, antes de darmos pitacos sobre qualquer coisa ou sairmos estudando Filosofia, é fundamental que leiamos muita literatura, porque é ela a base para a compreensão dos fatos da realidade.

Os fatos são obras de pessoas reais. Então, por mais que nos detenhamos em análises políticas várias, estaremos sempre na superfície dos problemas se não tivermos ao menos uma pista das pessoas reais que protagonizaram os fatos analisados. E como conseguimos isso, se jamais conheceremos todos os agentes históricos e contemporâneos? Temos de ir atrás dos padrões, dos símbolos, das representações. E há duas formas de formar esse imaginário geral que nos guiará nas situações específicas que queremos compreender e criticar. Uma, a melhor delas, é adquirindo experiência real. O problema é que estamos limitados no tempo e no espaço; antes de vivermos, muita coisa já aconteceu; e, mesmo enquanto vivemos, não presenciaremos mais do que uma porção infinitesimal dos fatos que virarão história. Isso é muito óbvio – a experiência direta nos permite entender o mundo de forma geral e abstrata, mas não nos oferece material suficiente para entender as particularidades históricas. Para isso existe a literatura. Falo da boa literatura, é claro; do que é conhecido por "clássicos". Essa literatura, que jamais deixará de ser lida, contém a estabilização, o registro da realidade em que foi concebida. Os grandes poetas e prosadores nada mais são do que gente que viveu e viu tudo exatamente da mesma forma que todos a seu redor viveram e viram. O que os diferencia é a capacidade de dizer, de registrar, de narrar o que todos a seu redor viveram e viram – tanto de forma geral, quando tratam do ser humano, como de forma específica, quando tratam dos seres humanos inseridos em contextos históricos, geográficos e sociais.

A literatura, portanto, nos ensina a escrever; mas o principal é que nos ensina a pensar, a compreender a realidade; é o fundamento do caminho para o verdadeiro conhecimento. Por isso, deixem para ler os jornais do dia, as notícias e as opiniões depois de ler algumas páginas de literatura. Falo isso em termos gerais (para que coloquemos a formação literária em primeiro lugar) e específicos, em termos de rotina – comece o dia lendo literatura antes de ler jornais. Com o Julién Sorel de Sthendal, o Policarpo Quaresma de Lima Barreto, O Raskolnikov de Dostoievski e o Bentinho de Machado de Assis entenderemos com muito mais facilidade os Zé Trambique e os João Sem Braço do nosso dia-a-dia. Podem apostar! Com uma boa base literária é possível parar de perder tempo com fatos jornalísticos ordinários, repetitivos e enfadonhos, porque o sujeito fica treinado para compreender as situações específicas a partir dos substratos gerais adquiridos. Bastarão as manchetes e detalhes imprescindíveis e sobrará tempo para estudos muito mais úteis e importantes.

Recentemente, o Olavo publicou isto:

“Por caridade, não deixem a língua portuguesa do Brasil se estragar ainda mais. Estudem a boa e velha "Gramática Metódica" do Napoleão Mendes de Almeida, leiam José Geraldo Vieira, Graciliano Ramos, Leo Vaz, Herberto Sales, Gustavo Corção e Marques Rebelo e defendam o que é patrimônio cultural seu.”

Motivado por isso, escrevi-lhes a reflexão acima e ofereço-lhes a lista abaixo, com títulos de excelência da literatura portuguesa, para que, em primeiro lugar, escrevamos cada vez melhor; e, além disso, entendamos melhor esse ser tão peculiar que é o brasileiro:

CAMILO CASTELO BRANCO
Amor de perdição (1862)

MACHADO DE ASSIS
Toda a obra

JOSÉ GERALDO VIEIRA
A Mulher que Fugiu de Sodoma (1931)
A Ladeira da Memória (1949)
O Albatroz (1951)

GRACILIANO RAMOS
São Bernardo (1934)
Vidas Secas (1938)
Infância (1945)
Memórias do Cárcere (1953)

GUSTAVO CORÇÃO
A Descoberta do Outro
Lições de Abismo
O Século do Nada

MARQUES REBELO
Marafa (1935)
A Estrela Sobe (1939)
Três Caminhos (1933)